A
CRIANÇA ASILADA |
Excerto
de uma conferência proferida no "Colégio Piracicabano"
durante a "Semana da Criança". O tema é bastante delicado.
Criança asilada! criança ao desamparo, ao léu, sem família,
sem lar, sem pão! Ave implume sem o conchego do ninho, sem os cuidados
de uma proteção amiga e solícita reclamada pela precariedade
das condições de quem não sabe e não pode dirigir-se
por si; de quem se encontra desprovido dos meios de defesa pessoal e das possibilidades
de prever e prover a manutenção própria! Eis, numa síntese
mais ou menos lacônica, a amargura da soledade em que vegetam inúmeras
crianças na sociedade aristocrática de uma civilização
febril e volutuosa, expressa nos arranha-céus, aviões, rádio
e ... metralhadoras.
Falar na criança asilada é tocar no problema da orfandade, problema
esse que, ao lado de outros de grande relevância, permanece insolúvel
em nosso país. Órfã, a nosso ver, não é precisamente
a criança que perdeu os pais, ambos, ou um deles. Órfã
é a criança sem lar, portanto, sem carinhos, pela qual não
há quem se interesse entregue aos azares dos imprevistos, estejam ou
não contados no número dos chamados vivos os seus genitores.
É comum vermos, ao cair da noite, crianças maltrapilhas, desasseadas,
cabelo em desalinho, sobraçando marmitas e latas ameigadas, pedindo,
aqui e acolá, restos de comida, nacos de pão, etc. Dessas crianças,
a minoria é órfã por viver completamente abandonada, perambulando
pelas ruas e praças, a despeito de se achar em companhia dos pais. Estes,
geralmente, exploram os filhos, permanecendo em casa à espera da colheita
mais ou menos farta que as crianças conseguem fazer em sua cotidiana
peregrinação. Todavia, não os condenamos por isso, antes
os lamentamos; pois se trata de indivíduos ignorantes, destituídos
do senso da vida, verdadeiros párias, órfãos, a seu turno,
de vez que são outras tantas crianças, espiritualmente falando,
desprotegidas e desamparadas dos cuidados requeridos pela sua condição.
A orfandade, como a mendicância, a invalidez, o analfabetismo, as endemias,
o pauperismo, o vício e o crime são problemas sociais; ao Estado
compete, como precípua e indeclinável obrigação,
empregar os meios ao seu alcance para solucioná-los. O direito impõe
deveres, quando não nasce do próprio dever. O Estado, usando,
e até abusando do direito de intervir na vida do cidadão, tributando
e condicionando sua atividade, retirando, por esse processo, uma quota daquilo
que ele produz, está, por isso, no dever de acudir aos inválidos,
aos incapazes, aos miseráveis, e, particularmente, às crianças
que, não estando ainda em condições de produzir, constituem,
todavia, presumíveis fatores do engrandecimento material e moral de uma
nação; e, tanto mais lícito é esperar-se do seu
porvir, quanto mais e melhor se haja feito, no presente, em prol da sua educação,
sob todos os pontos de vista.
Pondo de parte as múltiplas e complexas questões sociais, consideremos
apenas a da criança desvalida, pois que é precisamente o assunto
desta nossa despretensiosa palestra. Os orfanatos e asilos resolverão
o caso em apreço? Respondemos pela negativa, considerando que a orfandade
se apresenta sob dois aspectos distintos: o material e o moral. O primeiro se
reporta às exigências físicas da criança; o segundo
respeita às suas necessidades psíquicas ou morais. Aquele atende
ao corpo, este, ao Espírito. Ora, os, orfanatos podem satisfazer plenamente
aos reclamos do físico; porém, nunca, aos do Espírito.
O regime que, por força das circunstâncias, vigora nesses estabelecimentos,
regime mais ou menos semelhantes aos dos quartéis,
expressos nos uniformes, nos dormitórios em comum, na sineta que chama
às refeições e determina a hora de se erguerem do leito,
enfim, aos regulamentos próprios de tais instituições,
age sobre o moral das crianças como um ferrete avivando a sua lamentável
condição de órfão.
Os asilos não são nem podem ser para as crianças o que
são as chocadeiras e as criadeiras para os pintos. Estes requerem somente
certos cuidados com a alimentação, com a higiene e a temperatura
do ambiente onde se desenvolvem. As criadeiras, portanto, preenchem perfeitamente
os fins a que se destinam. A vida humana, porém tem gamas e nuances delicadas,
que não podem ser esquecidas, sem que de tal olvido resultam sérios
prejuízos. Os asilos perpetuam, não extinguem a orfandade, condição
esta que permanece na mente do esilado como estigma indelével. Mesmo
depois de adulto, quando alguém se refere a ele, usa desta expressão:
é aquele moço, órfão de tal asilo, Ou então:
Fulano se casou com uma órfã do abrigo de tal localidade.
Por isso, salvo raras exceções que não afirmam a regra,
a criança asilada é sempre tristonha, tímida e desconfiada.
Cresce debaixo da dolorosa impressão de dependência, sabendo que
vive da caridade pública, que não existem para ela os carinhos
maternos e o zelo de um pai que vele pelo seu futuro e em cujo amparo possa
confiar! Certamente a criança não tem este raciocínio;
mas, a despeito disso, sente o efeito inelutável da ausência daqueles
fatores que tão grande influência exercem e exercerão em
sua vida psíquica, confirmando plenamente o pensamento dopoeta:
As
almas infantis
são brancas como a neve,
são pérolas de leite
em urnas virginais;
tudo quanto se agrava
e ali se escreve
cristaliza em seguida
e não se apaga mais.
E
o que diremos de certos asilos que expõem os orfãozinhos, devidamente
caracterizados, aos olhos do público, visando com isso inspirar compaixão?
E quando fazem as próprias crianças estenderem as mãos
aos óbolos obtidos por semelhante processo desumano e humilhante? A infância
é a época em que o ser reclama mais cuidados e maiores desvelos.
Trata-se de lançar as bases de uma edificação cuja solidez,
como sói acontecer a toda espécie de construção,
depende dos alicerces.
A nosso ver, salvo melhor juízo, somente no seio da família, no
lar bem organizado, encontramos o meio propício, o terreno adequado para
lançarmos o embasamento capaz de suportar a edificação
dos caracteres que constituirão as individualidades mais ou menos acabadas.
Para a fome, alimento; para a sede, água; para a criança, o regaço
materno, o lar doméstico. Só aí se depara o clima propício
à sua delicadeza, ao seu estado e condições especialíssimas.
Fora desse meio, ela poderá viver e crescer como certas plantinhas débeis
entre as frinchas de uma rocha. Jamais, porém, logrará florescer
e frutificar como as árvores que tiveram a ventura de nascer e crescer
em solo aberto e franco, expostas aos raios benéficos do sol e às
chuvas fecundantes do outono. Mas, objetar-me-ão, talvez: Onde encontrar
lares para todos os órfãos espalhados por este orbe?
A dificuldade não está na carestia de lares, mas na esterilidade
dos corações. A orfandade é um dos crimes do egoísmo.
Se distribuíssemos os órfãos todos deste mundo entre as
famílias constituídas, não tocaria, talvez uma criança
para cada grupo de cinquenta habitações. Na estreiteza de sentimentos
é que não há lugar para resolver o velho e angustioso caso
da orfandade. Os asilos, remediando o mal, constituem a prova eloquente do reino
do egoísmo entre os homens. Só perfilhação ou adoção
encerra o remédio radical da criança desvalida. Quando ela encontrar
alguém, a quem possa dar, espontaneamente, sem obedecer às injunções
calculistas de terceiros, o doce nome de mãe, terá, então
arrancado para sempre de sua fronte o negro véu da orfandade.
Existem, nos centros populosos, ricos solares, luxuosos palacetes e vilinos
de rigidos estilos artísticos, em cujos recintos os cães de raça
comem à mesa dos seus donos e dormem em leitos macios, resguardados da
importunação das moscas, mas onde não resplende a graça
angélica de uma criança, onde não se escuta o sorriso nem
se ouve o alvoroço daqueles que Jesus costumava reunir em torno de si,
dizendo: Deixai vir a mim os pequenino; porque deles é o reino dos céus.
Em compensação, nesses suntuosos lares, ouve-se, nas cavalariças,
o relinchar de corcéis de puro sangue, cobertos com mantas bordadas,
e, no confortável canil, o ganido e o rosnar de nédios e luzidos
mastins, trazendo ao pescoço finas coleiras, chapeadas de metal reluzente.
Não existem asas implumes sem ninho, ao abandono. As mesmas feras não
deixam sem furna os seus filhinhos. Só na sociedade humana se encontram
crianças ao desabrigo, vagando a esmo sem família e sem penates!
Será sempre assim o mundo? Acreditamos que não. A Evolução
é lei incoercível. A natureza não dá saltos; porém,
lentamente, tudo vai-se modificando, tudo vai se transformando, e o Universo
marcha para a frente e para o alto. Cremos piamente na melhoria do nosso estado
social. O relógio do progresso avança em seu movimento isócromo;
e, quando interesses malsãos procurem retardar-lhe a caminhada, determinando
desacordo com a posição do sol que ilumina a trajetória
da Vida, dizem que o dono do relógio põe nos ponteiros e....acerta
as horas.
É assim que se explica a queda da escravidão, do feudalismo, dos
latifúndios, da inquisição, do absolutismo e de outras
instituições iníquas. Toda árvore que o Pai não
plantou será arrancada. A melhoria da humanidade está na razão
direta da nova orientação que as mães de hoje possam dar
aos seus filhos. E toda mulher é sempre mãe, seja qual for a sua
idade e o seu estado civil. É da mulher que nascem as auroras de novos
dias de esperanças e de fé. Trabalhemos pela criança, melhorando
as condições dos lares existentes e constituindo outros sob aspectos
mais excelentes, que sejam verdadeiras retortas, onde se destilem as gotas do
amor, desse amor que opera prodígios e realiza milagres.
Note-se porém o seguinte: Não somos inimigos dos asilos. De maneira
nenhuma pretendemos que se cerrem as suas portas. Queremos, sim, que o seu número
— que reputamos demasiadamente limitado — se multiplique, se centuplique,
de modo que o seio de cada família seja o refúgio da criança
desamparada; que cada lar seja um abrigo franco aos menores desvalidos; que,
finalmente, cada coração seja um asilo aberto, onde a orfandade
se extinga, desaparecendo ao sopro divinal do amor.
Vinícius