A DOUTRINA DOS ESPÍRITOS

A malsinada indisciplina reinante entre os adeptos do Espiritismo, longe de ser como em geral pensam, motivo de lamentação e desalento, constitui, antes, a prova evidente da superioridade da excelsa doutrina. É mais um testemunho eloquente que demonstra o que, por vezes, temos dito: o Espiritismo é o mesmo Cristianismo, reivindicando os seus direitos através da ação do prometido Parácleto — que quer dizer — advogado, defensor ou intercessor.

A disciplina é uma virtude digna do melhor acatamento — aliás o são todas as virtudes - desde de que seja natural e espontânea, fruto de resolução pessoal, derivada da razão e do sentimento. Fora desta condição, degenera, deixando de corresponder à finalidade moral que dela é lícito esperar-se.

A disciplina verdadeira, que resulta da livre vontade de cada um dos componentes de um grupo de pessoas, é de difícil consecução; e, tanto mais dificultosa se torna,
quanto maior seja o número dos indivíduos filiados a cada grupo. A coesão entre os partidários de um ideal depende da uniformidade do grau evolutivo dos seus profitentes. Se conseguíssemos reunir, em torno de uma doutrina, cem ou mil indivíduos cujo grau de evolução fosse idêntico, teríamos, desde logo, assegurada, entre eles, uma perfeita disciplina. Mas, sabemos o grande obstáculo, a quase impossibilidade de lograrmos tal resultado, num meio heterogêneo e atrasado como é o dos mundos expiatórios, em cuja categoria se conta o planeta que habitamos.

Se aqueles que sabem se compenetrassem do árduo e penoso dever que lhes cabe, de ensinar, pela palavra e pelo exemplo, os que não sabem; e, se estes, a seu turno, se dispusessem a aprender o que ignoram, o nível intelectual e moral dos agrupamentos ou sociedades humanas se elevaria progressivamente, sem maiores abalos nem perturbações. A vaidade, porém, dos que sabem um pouco mais que o vulgo, chocando-se com a presunção dos que ainda sabem menos, provoca atritos, confusão e separações. Tal é, em realidade, o resultado do orgulho que predomina nas ambiências inferiores. Só as experiências amargas; a dor sob suas multiformes modalidades, consegue, então, modificar essa triste e lamentável situação.

Outro tanto, porém, não sucede com a disciplina ou unidade de vistas, imposta à força. Esta forma de ordem e de união pode ser implantada com relativa facilidade, de um momento para outro. Basta, que se disponha dos meios restritivos para impor a obediência. Nada mais é necessário. A unidade se faz miraculosamente, graças ao emprego de dois fatores: a ameaça e o suborno, ou seja, o castigo e o prêmio.

Mas esta espécie de disciplina não conduz aos resultados da outra. Seu objetivo é puramente material, aplicável no momento, enquanto que aquela outra visa a proventos espirituais na esfera da inteligência e do sentimento, criando personalidades, consolidando caracteres.

Uma disciplina prodece da força, outra, da razão. Uma emana de fora, outra, de dentro. Uma provém de autoridade estranha; outra, de autoridade íntima, promanando das potências espirituais próprias do indivíduo. Finalmente, uma educa, desenvolvendo os poderes anímicos, tornando o homem livre e independente, enquanto que a outra o desfibra, o despersonaliza e abastarda, criando nele o automatismo inconsciente, com relação aos mesmos atos que pratica.

Como se vê, as duas categorias de disciplina produzem frutos opostos, cada uma segundo a sua espécie. E, por isso, pelos frutos se distinguem perfeitamente as duas árvores: a da obediência natural e espontânea e a da obediência artificial e constrangida. Das premissas expostas, concluímos que é de fato, difícil, muito difícil, conseguirmos estabelecer disciplina dentro das normas da fé espírita, que — nunca será demais recordar — é a reviviscência da fé cristã, cujo máximo esplendor espiritual se verificou precisamente nos tempos em que os seus legítimos expoentes eram simples e humildes, vivendo esparsos aqui e acolá, sob a pressão e as hostilidades dos magnatas da época, civis e eclesiásticos.

O processo pelo qual se obteria a disciplina no Espiritismo é o inverso daquele graças ao qual se consegue disciplina nas organizações humanas. Deve partir da periferia para o centro, isto é, da resolução dos próprios espiritistas, que cônscios dos seus deveres e da necessidade de ordem para o progresso da doutrina neste meio, se dispusessem a renunciar, cada um, às suas pretensões pessoais, congregando-se voluntariamente em torno dos mais capazes, que seriam, então, os mais abnegados, porque mais sobrecarregados de responsabilidades.

Isto tudo, segundo aquele sábio critério do excelso Mestre, que assim preceituou aos seus discípulos: Aquele entre vós que quiser ser o maior, seja o menor e o servidor de todos; pois mesmo o Filho de Deus não veio a este mundo para ser servido, mas para servir. Entre os gentios — continua o incomparável Preceptor e Guia da humanidade, — há príncipes e vassalos; há os que governam e os que são governados. Entre vós, porém, não será assim. Aquele que se sentir o maior faça-se o menor e o servidor de todos.

Eis aí a regra áurea traçada pelo Ungido de Deus, para vigorar entre os que, real e não nominalmente, quiserem seguir-lhe. O Espiritismo não tem nem reconhece um chefe na Terra. Sua estrutura doutrinária, que é a do vero Cristianismo, não autoriza, antes condena, todo o constrangimento ou artifício, que pode engendrar, como engendra, simulação e hipocrisias. Não promete prêmios ou recompensas que não sejam aquelas imanentes da conduta própria; não ameaça com castigos outros, que não os que decorrem do mesmo erro e da mesma culpa cometida, como consequência da lei de causalidade.

A força do Espiritismo, seu poderio e influência serão de natureza espiritual, ostentando-se, portanto, no íntimo dos seus profitentes, nunca em exterioridades, pompas e superficialismos. Seu reino, como o de Jesus, não é deste mundo, por isso que traça, definida e categoricamente, a esfera de César e a esfera de Deus. O Espiritismo não pretende o domínio da Terra na sua acepção material. Sua atividade se verifica na consciência individual de cada espírita, onde se reflete a soberana e indefectível justiça divina, de acordo com a palavra evangélica: Ninguém poderá dizer sobre o reino de Deus: — ei-lo aqui, ou ei-lo acolá; porque em verdade vos digo que o reino de Deus não se patenteia por meio de exterioridade, pois que esse reino está dentro de vós.

Assim, pois, o Espiritismo não demonstra seu valor e excelência através de edifícios custosos que impressionam os sentidos. O Espiritismo nada tem que ver com as obras de fachada, sejam elas de que natureza forem, por isso que o seu templo é o Universo; seu altar, o coração humano; sua lei, o amor ao próximo; seu objeto, a liberdade do homem por meio de sua espiritualização. A força que dele dimana se exprime pelo diapasão daquela que Pedro revelou, à porta de certa igreja judaica, estendendo as mãos e dizendo ao paralítico que lhe pedira um óbulo: Não tenho prata nem ouro: mas daquilo que tenho, disso te dou: Levanta-te e anda, em nome de Jesus, o Nazareno. E o paralítico se locomoveu ao influxo do poder divino filtrado através do velho e pobre Pescador.

É o poder espiritual, mediante a assistência do Alto, que o Espiritismo há de desenvolver em seus adeptos. É assim que se manifestará a sua legítima autoridade, tal como outrora se verificou no célebre dia de Pentecostes, dia que os Espíritos vieram reproduzir as mesmas maravilhas outrora verificadas na então famosa Jerusalém. Enganam-se, portanto, redondamente, os que pretendem constantinopalizar o Espiritismo, arrastando-o para a liça das competições. Enganam-se os que querem vê-lo oficializado, fruindo favores terrenos, desfrutando vantagens e privilégios mundanos.

Não nos iludamos com a natureza da Fé que dizemos professar. Procuremos sondar-lhes os íntimos arcanos, inteirando-nos de sua essência. Trata-se da doutrina dos Espíritos compilada por Kardec. Foi, portanto, revelada do Céu; nada tem que ver com as escolas, partidos e credos criados pelos homens. O Espiritismo encerra uma ideologia 'sui generis', sem similar na sociedade em que vivemos. Se não, dizei-me: Onde outro credo, outra fé, outra concepção, outra escola ou doutrina semelhante ao Espiritismo? Não é verdade que todos os credos, doutrinas, escolas e agremiações terrenas se fundam no princípio da autoridade e das hierarquias, compondo-se de dirigentes e dirigidos, de chefes e súditos? Não é precisamente a esse conceito e a esse programa que denominam organização?

E não é, outrossim, dessa organização que depende o êxito de todas as concepções e tentativas humanas? Pois o Espiritismo foge completamente desse critério: não tem organização, segundo a conceituação dos homens. O Espiritismo é um corpo doutrinário cuja cabeça não está na Terra. Daí porque Jesus, que é a cabeça desse corpo, disse aos discípulos: Vós estais no mundo, porém não sois do mundo. Aqui, tereis tribulações, mas tende ânimo: eu venci o mundo. Vencer — eis o ideal que o Espiritismo desperta nas almas encarnadas na carne. E quem diz vencer diz lutar, visto como a vitória verdadeira é o resultado das porfias e refregas sustentadas com perseverança, coragem e entusiasmo.

Vencer, sim, a matéria com seus pendores e arrastamentos; o orgulho nas suas expressões de vaidade, presunção e soberba; a ambição e a cobiça, sob suas modalidades de avareza e apego aos bens temporais, de vanglória e ostentação de poder; e, finalmente, vencer o derradeiro inimigo da nossa felicidade — que, no dizer de Paulo, é a morte. Eis aí o programa original que o Espiritismo encerra; eis aí a bandeira de combate que desfralda. Sem menosprezar, pois, o corpo, a cujas necessidades aconselha atender, considerando-o como precioso instrumento de aprendizado, o Espiritismo nos leva ao império do Espírito, por isso que é doutrina dos Espíritos e não dos homens; da alma imortal e não da carne transitória, perecível.

Suas finalidades não se concentram na posse da Terra, posse essa que importa na velha ilusão dos que pela Terra se batem e se consomem, sem jamais chegarem a possuí-la. O Espiritismo encara a existência terrena como meio para o fim — que é a libertação ou redenção espiritual — obra ingente e milenar que encerra a suprema conquista das almas. Evoluir — sob dois aspectos — intelectual e moral, avançando, de glória, de triunfo em triunfo e de céu em céu— através das infinitas moradas da casa do pai — eis o roteiro espírita. Por isso o Espiritismo deve ser estudado e assimilado debaixo de sua tríplice estrutura: ciência, filosofia e religião — sendo esta última modalidade a mais importante, porque constitui o amálgama que consolida as outras duas, formando um todo harmônico e indissolúvel, que corresponde às necessidades inalienáveis do Espírito.

Razão, ciência e fé — tal a trindade de que se compõe a Terceira Revelação. Separar esses três fatores de evolução importa em desnaturá-los, quebrando ao mesmo tempo a unidade desse admirável corpo doutrinário. A ciência terrena, como disse Emmanuel, através da extraordinária mediunidade de Francisco Xavier, tem necessidade do Espiritismo, se não quiser continuar no papel de comparsa das tiranias e da destruição, porque o Espiritismo tem por finalidade divina a iluminação dos sentimentos, na sagrada melhoria do homem, nas suas características morais.

Não nos iludamos. Contemplemos o Espiritismo em suas linhas espirituais, em suas concepções divinas; em sua aspiração suprema, que consiste na nossa redenção. Vejamo-lo com os olhos da alma, e sua grandeza e esplendor se manifestarão no nosso interior, no recesso dos nossos corações, que é onde está o reino de Deus, que é o do Espírito. Não procuremos as suas expressões no exterior, nas obras de pedra e de fachada, nas organizações humanas. Inteirando-nos da sua moral inigualável, do seu programa original e da sua sabedoria profunda que em tudo se manifesta.

Lembremo-nos de que a Doutrina dos Espíritos se dirige à razão e ao coração, apelando para a nossa inteligência e sentimentos, e não para os nossos sentidos. O seu objetivo não é fascinar para dominar: é esclarecer para redimir. A fé espírita é trigo, não é joio; nutre e fortalece a mente, não alucina nem incendeia a imaginação. Sua moral não visa a amatalotar e arranchar indivíduos passivos, que se movem tangidos pelo cajado de zagais que a si mesmos se divinizam e se outorgam poderes e privilégios. A moral espiritista cria personalidades, consolida caracteres, faz homens livres.

Não nos impressionemos com a decantada falta de organização de que dizem ressentir-se o Espiritismo. Organizemo-lo nós mesmos, em nossos lares — orando, estudando e meditando em família, os seus magníficos postulados. Não necessitamos de templos ou edifícios de pedra. Nós próprios somos templos de Deus, como afirma São Paulo. Formaremos a igreja viva de Jesus, de acordo com a sua solene promessa: Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei eu no meio deles. Esta é a igreja verdadeira, igreja universal, por isso que tem a sua sede em toda a parte, onde haja dois ou três corações amoráveis e humildes que se congreguem e se irmanem com o propósito de implorar a assistência de Deus, através do seu Cristo e dos seus delegados celestes.

Vinícius