A
EUCARISTIA |
"... Eu sou o pão vivo que desci do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. .. Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna... e permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou e eu também vivo pelo Pai, assim quem de mim se alimenta também viverá de mim... Isto vos escandaliza?.. . O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita: as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida..." — S. João, VI - 61 a 63.
As afirmativas
acima transcritas, proferidas pelo Mestre e Senhor, causaram escândalo
aos fariseus formalistas de outrora, constituindo, ainda neste século,
pedra de tropeço para as várias formas vigentes de gentilidade.
Nada obstante, aquelas assertivas exprimem a maior e a mais transcendental revelação
que, qual estrela de primeira grandeza, refulge no céu da espiritualidade.
O nosso corpo procede da terra, pois que resulta do alimento que ingerimos,
da água que bebemos e do ar que respiramos. Tomamo-lo de empréstimo
ao orbe que ora nos hospeda, e o restituiremos, quando daqui partirmos, de acordo
com a sentença exarada no primeiro livro do Pentateuco: "Memento,
homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris".
Toda a carne tem essa mesma origem, seja ela animal ou humana, da raça
branca, preta ou amarela; da saxônica, judaica ou latina. Quanto, porém,
ao Espírito, donde viemos? Como a matéria, tem a alma um só
princípio, uma só gênese: Deus. Nele vivemos, nos movemos
e existimos: porque dele somos geração — disse o grande
apóstolo dos Gentios. Descobrir, pois, a linhagem divina em nós,
cultivá-la, desenvolvê-la progressivamente — eis o alvo e
o senso da Vida em sua mais sublime e excelente expressão.
Essa
é a maravilhosa revelação que nos trouxe o Profeta de Nazaré.
E, não só a anunciou, como a fez concreta em si própria,
mostrando-nos ao vivo, através dos poderes espirituais enunciados, a
divina natureza.
Filho de Deus é Jesus, e o são, a seu turno, todos os homens com
a diferença que o Mestre conhece, sente e revela em sua vida a pulcra
e santa estirpe, enquanto aqueles a ignoram de fato e de experiência,
por isso que ainda a conservam em estado latente. Dessa ignorância resultam
as dúvidas, os desatinos, a fraqueza, os erros e delitos em que os homens
permanecem.
Sua conduta é dos que andam em trevas. As paixões os agitam, o egoísmo os conduz. E assim permanecerão até que comam a carne e bebam o sangue de Cristo, começando, então, a viver da vida que Ele vive, que é a vida que vem de Deus. Quem ingerir aquele alimento viverá eternamente, porquanto, vencendo a morte, não se encarcerará mais na prisão da carne.
O
que nutre o corpo é o que é gerado da terra, e o que sustenta
o Espírito é o que desce do céu. As necessidades do corpo
se relacionam com o planeta, onde temporariamente permanecem. As do Espírito
se harmonizam com o infinito, que o atrai e arrebata.
Sendo como é, uma só a fonte da Vida espiritual, que é
eterna, a missão de Jesus é integrar-nos nessa fonte como Ele
se acha integrado, conscientemente, percebendo, sentindo e gozando a plenitude
da Vida. Quero que o meu gozo esteja em vós e o vosso gozo seja completo.
Eu vim a este mundo para que tenhais vida, e vida em abundância.
Para compreendermos e assimilarmos, como discípulos, os ensinamentos
do Mestre excelso, é preciso que dele nos aproximemos progressivamente,
até que com Ele nos identifiquemos. Onde eu estou estará aquele
que me serve. Já não sou eu mais quem vive: é Cristo que
vive em mim, disse Paulo.
Da mesma sorte que se faz a transfusão de sangue para salvar o doente
extenuado, prestes a sucumbir, assim também é necessário
que se opere a transfusão da vida de Cristo em nós, para que possamos
vencer a enfermidade moral que nos vexa, degrada e infelicita. Em verdade, em
verdade vos digo que se não comerdes a carne e beberdes o sangue do Filho
do homem, não tereis vida em vós. Só a vida de Cristo vertida
na humanidade resolverá, de vez, todos os problemas sociais que vêm
convulsionando o mundo através dos séculos, sem que até
o presente encontrassem solução.
Eu sou a videira e o meu Pai é o viticultor; vós sois varas; aquele
que permanece em mim, e no qual eu permaneço, dá muito fruto,
pois sem mim nada podeis fazer. É integral e perfeita a comunhão
entre a videira e os sarmentos. Só assim estes frutificam, mercê
da seiva que do tronco nele se transfunde. Da mesma sorte é mister que
nossas relações com Cristo sejam cada vez mais íntimas
e estreitas, para que possamos haurir do seu coração, escrínio
insondável da graça, o amor que é a vida do Espírito,
como o sangue é a vida do corpo, e a seiva é a vida da planta.
Em tal importa a Eucaristia em espírito e verdade. Simbólicas
são as expressões com que Jesus no-la apresenta; todavia, na prática,
não se trata de cerimônia, ritual ou símbolo, mas de realidade
positiva, de potência espiritual incoercível que transformará
o mundo no dia em que os homens a compreenderem, entrando em sintonização
com ela.
A passagem acima comentada é a confirmação do que Jesus,
mais tarde, no decurso da ceia pascal, disse aos se discípulos, com relação
ao pão e ao vinho: Tomai e com este é o meu corpo, que é
dado por vós. Empunhando e seguida o cálice acrescentou: Este
cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado
por vós.
Vinícius