A VIDA QUE JESUS NOS DEU

"Ninguém tem maior amor do que este: dar alguém a sua vida pelos seus amigos".
"Nisto se conhece o seu amor: em ter dado a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos".

Porém, de que modo? Como devemos compreender semelhante transação? Naturalmente dirão: Ele morreu por nós, deixou-se justiçar no madeiro infamante, sacrificando-se, assim, pela causa da nossa redenção.

É o que supunham os homens de outrora; é o que ainda imaginam muitos cristãos dos nossos dias. Antigamente não se admitia resgate de culpas, senão mediante a efusão de sangue. Tampouco se concebia reconciliação por outro meio ou processo, além do derrame do preciso líquido que Empédocles considerava como sendo a própria alma, por ser, como realmente é, a base da vida animal ou corpórea.

Daí por que as Escrituras, e mesmo a história profana, se reportam frequentemente aos casos de holocausto e sacrifício cruentos, os quais culminaram na imolação do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

No entanto, cumpre hoje consideremos a natureza da divina oblata consumada no cimo do Calvário, tirando das palavras do Senhor o sentido profundo que elas encerram, despojando da letra que mata o espírito que vivifica.

A sagrada oferenda da sua preciosa vida, tal como Jesus a fez, tem um alcance muito maior do que a sua morte na cruz. Referindo-se à sua missão junto à humanidade, Ele disse que ninguém revela maior amor pelos amigos do que aquele que lhes dá a própria vida.

Ele no-la deu realmente, porém numa acepção ampla, lata, imensa, visto que importa, não na morte do seu corpo, mas na vida eterna do seu imaculado Espírito, consagrado em prol da nossa libertação das trevas da ignorância e do império das paixões torpes e vis que nos degradam e aviltam.

A vida do corpo é efêmera, é o momento que passa como um relâmpago na eternidade. A vida do Espírito, que é indestrutível, permanece através dos séculos e milênios sem conta. Essa é a vida que o Senhor nos ofertou e dedicou, antes que o conhecêssemos, a Ele e a nós próprios, como seres conscientes e responsáveis.

Tudo (na Terra) foi feito por Ele; e nada do que tem sido feito foi sem Ele... Ele estava no mundo, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Os dizeres acima se referem ao encargo de Jesus no que respeita ao planeta Terra e à humanidade que o habita.

Vemos como Ele colaborou na formação do nosso orbe, na imensa retorta do infinito, e como vem acompanhando através dos tempos os Espíritos aqui encarnados, na obra de sua evolução. Vigilante e paciente. Ele tem vivido a vida do homem, em todos os passos do seu progresso e aperfeiçoamento.

Suportanto os duros percalços e os amargurados reveses que sobre Ele se refletem, originados de todas as rebeldias e de todas as insânias e maldades que os homens têm cometido e ainda cometem, Jesus vem, milênios em fora, velando, como pastor dedicado e extremoso, as pegadas do ingrato e rebelde rebanho que o Pai lhe confiou, para que o conduzisse e o apascentasse.

Quem é capaz de penetrar o âmago desse sacrifício? Quem pode avaliar a sua profundidade? Onde aquele cuja mente está em condições de aquilatar e compreender a enormidade de tamanha renúncia e a excelsitude da consagração duma vida em prol do bem e da felicidade de seres tão ingratos, tão obstinados e relacitrantes no mal, como são os filhos da carne e do sangue?

Se um homem se atira num rio e arrebata da sua correnteza uma criança prestes a sucumbir, esse homem é tido como herói. Seu gesto é comentado pelos jornais; seu nome corre de boca em boca como protagonista de um efeito que deve figurar nos anais da história, para exemplo à posteridade.

No entanto, a mãe pobre, lutando com dificuldades econômicas, que sacrifica toda a sua existência numa dedicação de todos os momentos, numa vigília de todos os instantes, para criar e educar os filhos que Deus lhe deu, passa pelo cenário terreno despercebida e olvidada. Sua renúncia, sua dedicação, seu desvelo e seu sacrifício não são notados e muito menos admitidos como exemplificação digna de ser imitada.

Sobre seu peito esquálido não pendem medalhas nem insígnias que assinalem o mérito, a coragem e o valor! Assim é o juízo do século. Os homens se impressionam pelos sentidos. Gostam do alarde, do sensacional e do melodramático. Raciocinar, refletir e julgar com a razão é costume a que ainda não se habituaram.

Não obstante, é tempo já de desmaterializar-se o conceito das coisas, afinando as cordas dos nossos sentimentos pelo diapasão do Espírito.

Quando isso suceder, a Cristandade, que vive presa ao Cristo Crucificado, lamentando e lastimando a sua morte no madeiro, despertará ao influxo do Cristo Redivivo, atuando nos corações como força viva a impelir a humanidade para a frente e para o alto, na suprema conquista da sua liberdade.

A vida, pois, que Jesus nos dá é a que teve início na manjedoura de Belém e finalizou no alto do Gólgota. Ele no-la deu, no momento de entregá-la às mãos iníquas dos seus algozes, mas, sim, no sentido de havê-la, de há muito, consagrado à obra da nossa contínua evolução.

Vinícius