AMOR
E EGOÍSMO |
Disse
o Rei aos que se achavam à sua direita: Vinde, benditos do meu Pai; possuí
como herança o reino que vos está destinado, desde a fundação
do mundo. Pois tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber;
era forasteiro, e recolhestes-me; estava prisioneiro e enfermo, e visitaste-me.
Então, perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos faminto,
sedento, nu, forasteiro, encarcerado e enfermo, e te assistimos? E o Rei responderá:
Em verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos
mais pequeninos, a mim o fizestes.
Prosseguindo, disse o Rei aos que se encontravam à sua esquerda: Apartai-vos
de mim, malditos, para o fogo eterno destinado ao diabo e seus anjos. Pois tive
fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de
beber; estava nu, e não me vestistes; era forasteiro, e não me
recolhestes; enfermo e preso, e não me visitastes.
Estes também indagarão: Senhor, quando te vimos faminto, sedento,
nu, forasteiro, enfermo e encarcerado, e não te assistimos? Então,
lhes responderá: Em verdade vos digo que todas as vezes que o deixastes
de fazer a um dos meus irmãos pequeninos, a mim o deixastes de fazer"
(Evangelho).
Os trechos
acima, extraídos da Parábola dos Cabritos e das Ovelhas, são
dignos de toda a meditação e apreço,
porque encerram, numa síntese perfeita, clara como a luz meridiana, a
súmula da lei que rege, os nossos destinos.
Os dois grupos — o dos eleitos e o dos réprobos — distinguem-se
por um só e único característico. O primeiro conduziu-se
pelo influxo do amor; o segundo, pela influência do egoísmo. Uma
só virtude salvou os bem-aventurados. Um só pecado perdeu os precitos
(condenado, maldito). Céu e inferno resultam, pois respectivamente, de
uma única forma de conduta: solidarismo ou isolacionismo. A condenação
dos esquerdistas não procedeu propriamente do mal que houvessem cometido,
porém do bem que deixaram de praticar.
Sua
atitude foi negativa, em obediência ao programa ditado pelo egoísmo,
enquanto que a dos direitistas foi positiva, atendendo aos impulsos do amor.
Dessas circunstâncias, que representam causas distintas, resultaram, como
é natural, efeitos opostos, isto é, a felicidade de um grupo e
a desventura do outro.
Havendo, portanto, uma só virtude que salva, e um só pecado que
condena, torna-se simples e sumário o julgamento das almas. Não
se faz mister aparatos, defensores e acusadores. O Juiz não precisa recorrer
a testemunhas, informes e pesquisas fastidiosas. Não lhe interessam a
religião, a raça, a nacionalidade, os conhecimentos, a política
e a posição daqueles a quem vai julgar. Uma só informação,
um só antecedente lhe basta para formular o único quesito de cuja
resposta depende a sentença. Esse quesito resume-se no seguinte: as necessidades,
as vicissitudes e as angústias dos pequeninos encontram, ou não,
eco em seu coração?
Nada mais. A resposta afirmativa é a vida; a negativa é a morte.
A vida está no sentimento; a morte, na impiedade. E o que é o
sentimento, que nos desperta interesse pelos que sofrem, senão o reclamo
do amor? E o que é a indiferença, a frieza, numa palavra, a impiedade,
senão a resistência do egoísmo? Entre o amor e o egoísmo
oscila, inclinando-se para a direita ou para a esquerda, o fiel da balança,
símbolo da soberania e indefectível Justiça Divina.
O amor faz os justos; e o egoísmo, os réprobos. Não há
necessidade, pois, de enumerar as faltas, delitos e crimes, tais como o homicídio,
o roubo, o adultério, a inveja, a cobiça, a hipocrisia, a luxúria,
etc., por isso que o egoísmo reveste, no mal, todos os aspectos e modalidades.
Outrossim, torna-se dispensável aconselhar e encarecer o valor e a excelência
das virtudes, estas ou aquelas, porque todas elas são aspectos e modalidades
que o amor assume na infinita esfera do Bem e do Belo.
Jesus encarna todos os sofredores, todos os abandonados e todos os párias
deste mundo. Ele tomará sobre si as nossas dores, disse o profeta.
Cada um dos padecentes, a que se reporta a Parábola, representa certo
problema social, até hoje sem solução. Os famintos, sedentos
e nus personificam o pauperismo, a miséria; os doentes, a enfermidade;
os encarcerados, o crime; finalmente, o forasteiro que perambula ao léu,
os desocupados. Tais problemas são do passado e são do presente,
por isso que são de todos os tempos, constituindo alguns deles o fermento
de agitações que convulsionam a humanidade e das guerras cruentas
e bárbaras que, por vezes, têm ensopado a terra de sangue e de
lágrimas, quando Deus determinou que ela fosse regada com o suor do nosso
rosto.
Não basta, portanto, dar de comer ao que padece fome ao nosso lado; vestir
o nu que está ao alcance de nossa vista; assistir ao forasteiro, ao enfermo
e ao prisioneiro de nosso conhecimento. Cumpre encararmos de frente os problemas
sociais que esses sofredores personificam, trabalhando pela sua solução.
Sabemos que, mesmo através das iniqüidades do século, se
cumpre a Divina Justiça. O sofrimento por que o homem passa importa no
reajustamento do seu passado ao presente. Todavia, faz parte dos nossos deveres
porfiar pelo progresso do planeta que ora nos hospeda, contribuindo com nosso
esforço pessoal, para que, mediante a nossa, se consume a sua evolução.
Ora, as raízes dos males que infelicitam o nosso orbe estão na
organização social vigente, urdida de egoísmo, falha de
sentimento, divorciada do amor. Sua finalidade é, invariavelmente, o
lucro, o interesse, sendo que este se desdobra em várias formas, desde
o interesse rasteiro do provento material, até o interesse velado cujo
objetivo é a vaidade particular ou o prestígio de credos, instituições
e partidos.
Todas as atenções convergem para semelhante alvo, ao qual tudo o mais é sacrificado. Para Jesus, o indivíduo constitui o valor supremo, conforme demonstra a sua atitude diante dos leprosos, da mulher adúltera e de todos os deserdados que o procuravam. Este é o critério que deve orientar a sociedade futura.
Se a guerra mundial, (Na época da composição do presente capítulo pelo autor, o mundo vivia a 2ª guerra mundial), que ora assola o planeta, trouxer essa transformação, estará devidamente compensado o sacrifício de tantas vidas preciosas. É necessário, pois, como já foi dito com justeza, ganharmos a paz, porque o triunfo deste ou daquele grupo de beligerantes, de per si, nada representa.
A vitória do AMOR sobre o EGOÍSMO, DO SENTIMENTO sobre os INTERESSES, é a única vitória capaz de assegurar a felicidade humana, implantando na terra o reino de DEUS.
Vinícius