COMO
MORREM OS DOGMAS |
"A
cada um será dado segundo as suas obras".
A sentença evangélica supracitada é de uma clareza tal, que se impõe, desde logo, à primeira leitura. Não obstante, passamos por ela despreocupados, sem lhe dar o valor e a importância a que faz jus. É tão forte a verdade contida nessa frase, que nós procuramos, inconscientemente, e debalde, fugir à sua influência.
Supomos que se encontre longe de nós, num emaranhado difícil de destrinçar, a solução dos problemas que nos interessam. Imaginamos que os acontecimentos desagradáveis, que nos atingem e afetam, sejam estranhos à nossa condição e conduta, afigurando-se-nos, por isso, injustos.
Perguntamos a nós mesmos e aos nossos amigos: — Por que estarei passando por semelhante conjuntura? Que fiz eu para ver-me assim enredado nas teias de tamanha desventura? Achamos inexplicável toparmos com tantos obstáculos e tropeços no caminho da vida, procurando, inutilmente, através das vãs filosofias do século, um esclarecimento, uma explicação satisfatória que nos desanuvie a mente, a propósito de tão magno assunto.
Cansados,
confusos e desiludidos, julgamos mais acertado não pensar mais sobre
o problema do destino; mas os fatos, sim, os fatos de todos os dias e de todos
os momentos se incumbem de trazer e manter, â tona de nossa consciência,
tão impertinente objeto de cogitações.
No entanto, o caso é simples, como simples é a verdade. Sua explicação
e solução está em nós mesmos, por isso que a cada
um será dado segundo as suas obras. Será dado equivale a receberá;
portanto, estamos todos nós colhendo o que semeamos. Mas, dirão,
como se compreende que os bons sofram, enquanto os maus, por vezes, desfrutam
tranquilidade e prazeres?
Sendo, como realmente é, verdadeira a sentença evangélica em apreço, segue-se que o sofrimento dos bons importa o resgate de culpas passadas, ao passo que a efêmera satisfação dos maus representa a oportunidade concedida para se revelarem. Os primeiros estão colhendo, e os segundos, semeando.
Nem
é possível colher sem haver semeado, nem pagar dívidas
sem havê-las em tempo contraído. A semeadura precede à colheita
e a solvência vem após o compromiso. Não importa a época
nem as condições em que a sementeira foi feita; o que importa
é que cada um colha, onde estiver e como se achar, aquilo que semeou.
A assertiva do mestre: — A cada um será dado
segundo as suas obras — irradia luz tão intensa, que ilumina todo
o carreiro da vida, aclarando os problemas do ser, do destino e da dor. As existências
sucessivas, entrosadas umas nas outras mantêm a responsabilidade do indivíduo.
Decorre, outrossim, da mesma sentença que o perdão não
dirime o delito. Se dirimisse, aquela frase não prevaleceria.
E a nossa razão, aliada à nossa consciência, nos diz que
prevalece. O primeiro passo para a regeneração consiste no arrependimento.
Este só vem mediante à confissão íntima da culpa.
Ora, dívida reconhecida é dívida que deve ser paga. À semeadura segue-se a colheita. Deus perdoa sempre: perdoa antes, durante e depois do pecado consumado, por que Deus é amor. Mas é amor luminoso e não cego, como em geral é o do homem. Por isso, a bem do próprio devedor, exige que o dano praticado seja devidamente ressarcido.
Perdão é reconciliação. Se do pecado cometido não houve outra vítima além do mesmo pecador, como no caso do Filho Pródigo, a reconciliação se processará entre ele e o Pai celestial; se, porém, atingiu e afetou terceiros, a reconciliação com este deve preceder à reconciliação com Deus.
A mesma consciência do arrependido lhe diz que é preciso reparar o dano causado a seu irmão, pois só assim sentir-se-á satisfeita. Prevalece, pois, neste passo, como nos demais, a sabedoria das palavras do Senhor: A CADA UM SERÁ DADO SEGUNDO AS SUAS OBRAS.
Caem, destarte, por terra os dogmas da existência única, do perdão incondicional e da redenção pela graça ou pela fé, permanecendo firme e inabalável o espírito de justiça que, soberano e altaneiro, se ostenta através das letras daquela maravilhosa sentença.
Vamos fechar estes comentos, lembrando os dizeres de Vieira: "Ao nascer somos filhos dos nossos pais; mas, ao morrer, somos filhos das nossas obras".
E assim, ao romper da luz que ilumina o Espírito, morrem os dogmas !
Vinícius