ETERNA JUVENTUDE

A idade do Espírito se conta pelo grau de evolução atingido e não pelo tempo, pois que, para ele, um dia é como mil anos e mil anos são como um dia.

O ideal do Espírito está no futuro. Do passado guarda apenas as experiências. A nossa natureza íntima tende para um bem que está no porvir, e que de lá nos acena, impelindo-nos para a frente e para o alto.

A esperança é o astro sedutor que orienta e guia o Espírito, através da noite escura da encarnação. A esperança não se prende ao passado: encerra, sim, toda a magia do futuro. É sempre no horizonte que a divisamos, resplandecente e bela, qual nova estrela de Belém, conduzindo os prisioneiros de carne ao porto da redenção. Os que permanecem apegados ao pretérito perdem-na de vista e, envolvidos nas brumas, se desnorteiam.

Não será jamais, escavando a terra e revolvendo fósseis, que solucionaremos os problemas da Vida; mas erguendo a fronte e sondando, desassombradamente, os arcanos maravilhosos do céu que além nos esperam.

Desembaracemo-nos do passado, para que não nos suceda como à mulher de Lot, que se transformou em estátua de sal, por haver olhado para trás, quando fugia de Sodoma em chamas. Estratificar-se é a sorte reservada aos que vivem presos às tradições e às reminiscências de antanho.

Quem põe a mão no arado e olha para trás não está preparado para o reino dos céus. A transformação constante é um fenômeno biológico, graças ao qual a vida se perpetua. Renovam-se as células do nosso corpo, e renovam-se também as aspirações da nossa alma.

Renovam-se os hábitos e costumes e, com eles, as leis que regem a conduta dos homens na sociedade. Renovam-se os postulados científicos, corrigindo os erros de observação, como também se renovam as concepções da Arte e da Fé. Todas as energias tendem para a transformação dos seres e dos mundos.

A marcha da Vida é ascencional, das formas simples e primitivas para as complexas e elevadas. Caminhamos, como diz o Apóstolo das Gentes, de céu em céu e de glória em glória, sempre em novidade de espírito. O universo não retroage; avança continuamente. A evolução é o cunho inconfundível que assinala as obras de Deus, que são vivas, portanto ativas, dinâmicas, perfectíveis.

Para o Espírito não existe velhice nem decrepitude. É sempre novo, porque nele tudo se renova. Vive em perene juventude, porque as suas possibilidades se revigoram na experiência, desdobrando-se em novas capacidades, de acordo com a divina sentença do dia eterno da criação: crescei e multiplicai.

A juventude, portanto, não é, como disse certo pensador anônimo, uma determinada época da vida humana; é, antes, um estado da nossa mente. Não é uma questão de faces rosadas, lábios vermelhos e articulações ágeis: é um templo da Vontade, uma qualidade de imaginação, um vigor de emoção do dia eterno da criação: crescei e multiplicai.

A juventude é o predomínio natural do valor sobre a timidez, do desejo de aventuras sobre a inclinação ao comodismo. Existe amiúde em homens de cinquenta anos mais que nos de vinte. Ninguém se faz velho por ter vivido um determinado número de anos. O homem envelhece, quando volta as costas para os ideais.

Os anos enrugam a pele mas o abandono do entusiasmo faz rugas na alma. As preocupações, a dúvida, a falta de confiança em si próprio, o temor e a desesperação, são os largos, larguíssimos anos, que fazem inclinar a cabeça e submergem o Espírito no pó.

Aos setenta anos, como aos dezesseis, no coração de todo o ser humano existe o entusiasmo ante as maravilhas, o suave assombro ao contemplar as estrelas e os pensamentos que, como elas, brilham; a possibilidade de afrontar corajosamente os acontecimentos, a ânsia constante de esperar, como as crianças, o que se há de seguir e o júbilo perante o jogo da vida.

És tão jovem como tua fé, e tão velho como tua dúvida; tão jovem como a confiança em ti mesmo, e tão velho como o temor; tão jovem como tua esperança e tão velho como tua desesperação.

Tem razão o genial pensador, cujos sábios conceitos acima transcrevemos. Só envelhecem os que abandonam a luz da espiritualidade , que é a luz do ideal. Só envelhecem os Espíritos que se deixam mergulhar nas sombras da materialidade.

As formas passam, porque envelhecem. O Espírito vive eternamente, porque sempre renovada e acrescida de poderes e capacidades até então desconhecidos.

Saturemo-nos da doutrina renovadora predicada pelo excelso Reformador da Galiléia. Não nos assemelhemos a odres velhos que não resistem ao vinho novo. Vivamos em novidade de espírito, em perene juventude!

Vinícius