JESUS E NICODEMOS

Vamos comentar o curioso diálogo entre Jesus e Nicodemos. Como é sabido, as lições que o Instrutor da Humanidade proporcionou aos seus primitivos discípulos e ao povo judeu, em geral, em cujo meio exerceu sua atividade terrena, são lições que se estendem aos homens de todos os tempos.

E, considerando esse diálogo, vamos ter ocasião de conhecer as idéias do Divino Mestre, acerca da palpitante doutrina reencarnacionista, cuja divulgação se impõe, como premente necessidade, porque encerra a chave de vários problemas sociais de subida relevância.

Sem mais preâmbulos, procuremos penetrar o pensamento do Senhor, pois, para tanto, podemos contar com a sua benévola assistência, mediante os delegados celestes que legitimamente o representam, agindo sob o seu influxo. Isto, de acordo com a solene promessa dele próprio: Pedi e recebereis; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á.

Ouçamos a narrativa, segundo o Discípulo Amado: — Havia um homem, entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe entre os judeus; este foi ter com Jesus de noite e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus; pois ninguém pode fazer os milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu. Em verdade, em verdade te digo que se alguém não tornar a nascer, não pode ver o reino de Deus. Retrucou Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? pode, porventura, entrar novamente no ventre de sua mãe? Acrescentou Jesus:

Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes, pois de te haver dito: Necessário vos é tornar a nascer. O vento sopra de onde quer, e ouves o seu sonido; porém não sabes donde vem nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Nicodemos contestou: Como se pode fazer isto? Jesus concluiu: Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?... Se vos falei de acontecimentos terrenos, e não crestes, como crereis, se vos falar dos celestiais? Tal é a passagem, extraída do Evangelho de João, capítulo 3, versículo l a 12, tradução do Padre João Ferreira de Almeida, edição de 1963.

Procuremos ser sintéticos na apreciação deste magnífico trecho. Comecemos por chamar a atenção para esta particularidade: Nicodemos foi, à noite, ter com o Senhor e, avistando-se com ele, lhe dirigiu uma espécie de saudação, externando o juízo lisonjeiro que fazia a seu respeito e reconhecendo-o como missionário e divino, conforme atestavam as obras maravilhosas que praticava. À guisa de resposta, recruta Jesus sentenciosamente: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não tornar a nascer, não pode ver o reino de Deus.

E, acerca deste preceito, manteve com o seu amável e conspícuo visitante um diálogo, tendo ocasião de repetir enfaticamente aquela sentença, dirigida, então, de modo positivo e categórico à pessoa de Nicodemos, como se vê do versículo 7: Não te maravilhes de te haver dito: Necessário vos é tornar a nascer. — Por que teria Jesus trazido à baila o caso dos renascimentos? A que propósito viria essa matéria, e que relação tinha com as palavras daquele que o visitava, a quem o assunto não parecia interessante nem agradável? Por que insistir e frisar tanto tal questão? Não parece estranha essa atitude de Jesus?

Partindo, portanto, dessa circunstância, que é importante, encontramos a explicação nos motivos que se seguem. Nicodemos era príncipe, homem de largos haveres e de posição social destacada. Reconhecendo, embora, o caráter messiânico de Cristo, atestado pelos seus feitos e pelas doutrinas expendidas, as quais lhe tocaram o coração, a ponto de impeli-lo para junto dele. Nicodemos não teve, contudo, coragem de procurá-lo abertamente: fê-lo à noite, isto é, às escondidas, porque Jesus vivia rodeado de párias, de gente pobre, de enfermos, crianças e mulheres do povo. Acautelou-se o titular judeu, evitando que na sociedade em que vivia se viesse a saber do seu contato com o Filho do carpinteiro.

Ora, Jesus, recebendo-o, devassou logo o seu íntimo, e viu que, apesar da sinceridade das suas declarações, havia nele o preconceito social, a idéia de estirpe nobre, em suma, o orgulho de sangue que o impedia de integrar-se no reino de Deus, que é o da Verdade, da Justiça e, sobretudo, da solidariedade humana. Daí a razão da atitude assumida pelo Sábio Educador. O ensinamento dado a Nicodemos se estende a todos os homens. Cada um de nós tem uma pedra de tropeço embargando a entrada no reino divino. A do príncipe, que se embuçou no manto escuro da noite, para não ser visto quando procurava o Enviado Celeste, era a presunção originada de sua linhagem nobre, dos títulos que possuía, da posição e fortuna que desfrutava.

Tantos predicados e tantas prerrogativas reunidas formavam a pesada mole que o chumbava à gleba terrena, embaraçando seu acesso às regiões da Luz Perfeita. E, como havia ele. de se desvencilhar de tão grande pedra de tropeça? De modo muito natural: tornando a nascer, como disse o Mestre; então (acrescentamos nós), num meio humilde, de pais simples e modestos, em cujas artérias não corresse sangue azul. Desembaraçado de pergaminhos, brasões e riqueza, estaria apto a ver e alcançar o reino de Deus, uma vez que possuía já qualidades e virtudes que muito o recomendavam.

Esmerilhemos, em seguida, outros tópicos da palestra nicodêmica, de vez que já descortinamos a razão da insistência de Jesus em acentuar a necessidade dos renascimentos ou reencarnações, para que os homens cumpram o seu destino. A verdade precisa ser sentida. Quando paira tão somente na zona intelectual, não é assimilada; portanto o Espírito deve viver várias modalidades de vida, em meios diversos, em condições diferentes, e até mesmo em ambos os sexos, para que apreenda e se sature da verdade; dessa verdade que, no dizer de Jesus, é o fator único da nossa libertação.

A experiência é o livro da Vida. A experiência é o argumento convincente por excelência. Ela remove o Himalaia do orgulho humano; quebra, reduzindo a fragmentos inócuos, o iceberg das nossas presunções e da obstinação pretensiosa da meia ciência e do fanatismo ferrenho e agressivo.

O versículo 4.° nos refere a ingênua observação do rabino fariseu quando interpelou Jesus, desta maneira: Como pode o homem nascer, sendo já velho? Porventura tornará ao ventre de sua mãe? — Deixemos a crítica de tamanha parvoíce, e vamos à palavra da sabedoria, que é a que nos interessa. Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não renasce da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito.

É sabido de todos os estudiosos que, antigamente, os homens consideravam a água como corpo simples, como a matéria-prima donde tudo procedia. No livro da Gênese encontramos esta expressão: No princípio tudo era vão e vazio; e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Jesus, portanto, de acordo com o critério judaico, reportando-se ao renascimento da água, se referia à reencarnação, isto é, ao renascimento do corpo ou da matéria.

E que a matéria renasce das formas velhas nas formas novas, qual Fénix da fábula, quem ousará negar ou contestar? Não presenciamos, por toda parte, a renascença dos corpos mortos em corpos vivos? No reino vegetal não se verifica o fenômeno em apreço? Não se renovam, na primavera, as folhas que as árvores despiram no outono? Nos países frios, não é certo que desaparecem as vegetações no inverno? As árvores erguem seus braços desnudos, secos, como que implorando do céu a folhagem que os vestiam. Os campos áridos, cobertos de neve, se assemalham, então, às vastas necrópoles envoltas em branco sudário. E, depois, o que sucede?

O orbe prossegue no seu giro pela imensidade do espaço e, através de novo ciclo planetário, retorna à estação primaveril e, com ela, a vida ressurge, como que por encanto, de todos os quadrantes. As folhas engalanam novamente o arvoredo, reverdecendo as florestas e os bosques. Os campos se cobrem de vegetação que os esmalta de verde, a cor da esperança. É a atividade que volta, pujante e esplêndida; é a exuberância do solo que se ostenta em luxuriosas ornamentações, com que o mundo saúda as forças vivas e permanentes da Natureza.

E não será isso mesmo que acontece com as nossas vestes carnais? Certamente. Pertencemos a um plano superior; portanto, se voltam as folhas, as vegetações, as flores e os frutos voltam, com mais razão ainda, os corpos, revestindo os Espíritos, que retornam à face da Terra, continuando sua jornada evolutiva em demanda daquele reino de Deus, anunciado por Jesus, como alvo supremo a conquistar.

A Natureza guarda a uniformidade do Todo na diversidade das partes, assim como a harmonia da música decorre da variedade das notas. As almas velhas encarnam-se em corpos novos, para que, quando estes envelhecerem, elas rejuvenesçam. Eis a realidade. Não é tudo isto tão lógico e tão natural? Contudo os Nicodemos da época, mal disfarçados em seus preconceitos, ainda não compreendem como isso pode ser, e continuam fazendo perguntas semelhantes àquela do príncipe fariseu: Então o homem, sendo velho, pode entrar de novo no ventre de sua mãe? Como é que não nos recordamos disso? etc.

Mas. .. prossigamos. O renascimento corpóreo tem por objeto determinar o renascimento espiritual. Este último é o fim, aquele outro, o meio. Por isso Jesus se reporta a ambos, quando diz: O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. O vento, continua ele, sopra onde quer, ninguém sabe donde vem. Assim é aquele que é nascido do Espírito. Realmente, é o que se passa na ambiência terrena, desde que o planeta é habitado. O corpo é simbolizado nas velhas escrituras mosaicas como sendo o barro; e o Espírito, o sopro divino.

Quebra-se o vaso, a essência evola-se; depois, retorna em novos vasos. Nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredindo sempre: tal é a lei. Quanto à carne, sabemos, em cada geração, de quem procedemos, de quem somos filhos; porém, no que concerne ao Espírito que reencarna, ninguém sabe donde vem: é como o vento que sopra. A matéria procede da matéria, é fruto da concepção; mas a alma tem a sua gênese em Deus, fonte inexaurível da Vida universal. Não te maravilhes de te haver dito: Necessário vos é tornar a nascer, precisou bem Jesus, dirigindo-se à pessoa de Nicodemos.

O caso, portanto, no momento, dizia respeito a ele, ao príncipe dos judeus. Não havia que tergiversar. Mas a sua mente se achava tão obnubilada, que os argumentos mais claros e convincentos não logravam penetrá-la. Jesus, então, arrematou: És mestre em Israel e ignoras isto? Estou falando e dando testemunho do que sei e do que vejo, e não me crês. Ora, se falo de fatos terrenos e não me dás crédito, quanto mais se me reportar às coisas celestiais! O Mestre percebeu que o cérebro do rabino judeu se achava impermeável às lições; por isso era melhor fazer ponto.

Prestemos atenção a este relato histórico. Banqueteava-se esplendidamente no palácio do rei Herodes, cujo aniversário natalício era festejado. Sua sobrinha Salomé, jovem e bela, dançou com tal graça e donaire, que o rei ficou encantado. No auge do entusiasmo, levanta-se no meio do salão festivo, em presença dos convivas e dos dignitários da corte e, dirigindo-se à donzela, diz-lhe em voz alta e atitude solene: Pede-me o que quiseres, pois ainda que se trate da metade do meu reino, to darei. Salomé consulta sua mãe, rogando-lhe sugerisse o que havia de pedir.

A rainha, que odiava o Batista, porque este censurara o seu adultério, aconselha a filha a que obtivesse do rei a cabeça de João. Herodes, ainda que contrafeito, pois tinha certo respeito e temor pelo filho de Zacarias, cujas qualidades de profeta reconhecia, ordenou, para sustentar sua real promessa, que ele fosse decapitado na prisão onde se encontrava. Daí a momentos, entra um soldado da milícia herodiana, trazendo num prato a cabeça do Batista. Herodíade, a rainha, estava vingada. Salomé, recebendo o macabro presente, foi, em seguida, levá-lo a sua mãe. (Marcos, cap. VI, versos 14 a 29).

No ano de 1755, nasce em Viena uma encantadora menina, filha do imperador Francisco I, da Alemanha, e da imperatriz Maria Teresa, rainha da Hungria e da Boêmia. Cresce em graça e formusura. Desposa, em maio de 1770, o Delfim que, quatro anos depois, foi coroado rei. Viveu entre alegrias e festins numa corte algo semelhante à de Herodes na velha Palestina. Dada ao luxo, voluntariosa e cheia desses caprichos próprios de argentários poderosos, vê-se enredada na trama política de inimigos seus, dentro do próprio palácio. Os fatos se desenrolaram de tal maneira contra ela que, a 16 de outubro de 1793, em Paris, Maria Antonieta sobe ao cadafalso, de mãos amarradas, vítima das intrigas e invejas palacianas e do furor revolucionário que convulsionava a França, sendo decapitada.

Meditemos. Haverá relação entre Salomé, pedindo num banquete a cabeça do Batista, e Maria Antonieta degolada na guilhotina? Notemos as coincidências: ambas nasceram e viveram em casa real. Ambas formosas e levianas. Uma, pedindo a cabeça do profeta, do maior dos profetas, na Galiléia; outra, dando o seu pescoço ao carrasco, num patíbulo, armado em Paris. A dançarina judia será como dizem, Maria Antonieta? Essas duas figuras, uma em cada época e geração, serão a mesma pessoa? ou o mesmo Espírito em duas encarnações? Não afirmamos nem negamos a hipótese.

Lembramos apenas a sentença evangélica: Quem com ferro fere com ferro será ferido. Quanto, porém, ao Batista, podemos afirmar, baseado nas profecias do Velho Testamento e, acima de tudo, na palavra autorizada de Jesus, que as ratifica, tratar-se de reencarnação de Elias. Narram as Escrituras que esse extraordinário profeta, num excesso de zelo pelo monoteísmo em oposição ao politeísmo, ou seja, por Jeová contra o Paganismo, mandara certa ocasião, passar a fio de espada 400 sacerdotes de Baal. Esta divindade gentílica era muito popular na Fenícia e mesmo entre os israelitas, pois, quando estes entraram em Canaã, encontram ali, em pleno vigor, o culto a Baal, considerado o deus das forças da Natureza.

Chegou-se mesmo a erigir em Samaria, ao lado do santuário oficial de Jeová, um templo ao deus do paganismo. Elias, cioso da radicação da fé monoteísta, cometeu o crime acima referido, decepando 400 cabeças de sacerdotes que oficiavam em honra à divindade pagã. Comprovemos as nossas asserções. No livro de Malaquias, capítulo IV, verso 5, encontramos a seguinte profecia: Eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande dia do Senhor. Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos seus pais, para não suceder que eu venha e fira a Terra com anátema.

— Este vaticínio era muito conhecido entre os judeus. Tanto assim, que eles aguardavam a vinda de Elias antes da do Messias de quem esperavam a restauração do reino material de Israel. Compulsemos, agora o Novo Testamento e consideremos esta passagem narrada no Evangelho de Mateus, cap. XI, versos 12a 15: Disse então Jesus ao povo: Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado à força, e os que se esforçam são os que o conquistam. Porque todos os profetas e a Lei profetizaram; e se quereis sabê-lo, ele (o Batista) é o mesmo Elias que há de vir.

— No capítulo 17 desse mesmo evangelista, versos 10 a 13, deparamos com mais esta peremptória afirmativa de Jesus, acerca da reencarnação de Elias em João Batista: Perguntaram-lhe os discípulos: Por que dizem, então, os escribas que Elias deve vir primeiro? (Isto é, antes da tragédia do Calvário). Jesus retrucou: Na verdade, Elias há de vir e restaurará todas as coisas: declaro-vos, porém, que Elias já veio, e não foi reconhecido, antes, fizeram-lhe tudo quanto quiseram; assim também o Filho do homem perecerá nas mãos desta geração. Então os discípulos entenderam que Jesus lhes falava de João Batista.

— Precisaremos, acaso, de maiores argumentos e mais comprovações em prol do reencarnacionismo cristão? Será lícito, ainda, duvidar de que Jesus, o maior expoente da verdade neste mundo, ensinou e documentou a doutrina reencarnacionista? Os que tiverem olhos de ver vejam; os que tiverem ouvidos de ouvir ouçam.

Antes de concluirmos estas linhas, voltemos nosso pensamento para a soberania da justiça divina. Elias foi, no tempo de Israel, a maior figura dentre os profetas ou médiuns da época. Realizou inúmeros prodígios, muitas curas maravilhosas. Foi de uma operosidade sem par, de um zelo inigualável.

Dizem os livros sagrados que Elias não morreu como morrem os homens: desapareceu, sendo arrebatado aos céus num carro de fogo. Regressando ao plano terreno, na pessoa de João Batista, como precursor do advento messiânico, Jesus afirma que dos nascidos de mulher não havia outro maior do que ele. Contudo, cumpriu-se com essa augusta personagem a lei da justiça contida da sentença já citada: Quem com ferro fere com ferro será ferido. Elias degolou, o Batista foi degolado. A responsabilidade acompanha o Espírito em suas várias reencarnações! Imortalidade, pois, implica responsabilidade. Dura lex, sed lex..

Vinícius