JUSTIÇA |
A Justiça, como o Direito, resulta dum imperativo da própria vida humana. O homem é gregário. Não podemos imaginá-lo isolado dos seus semelhantes. Para socializar os agrupamentos humanos, torna-se indispensável coordenar a ação individual, delimitando-lhe as expansões, de modo a evitar atritos e conflitos. É necessário criar uma força íntima que se oponha às volições pessoais, sempre que estas colidam com os legítimos interesses de terceiros. Essa força interior que nasce, cresce e viceja na consciência humana, orientando e dirigindo a nossa conduta, é o DIREITO, e sua aplicação a JUSTIÇA.
Ela
tende naturalmente a desenvolver-se, determinando e acelerando a marcha evolutiva
do Espírito. É assim que podemos descobrir o dealbar da Justiça
naquela ordenança mosaica — dente por dente, olho por olho —
assim como o sol que, rompendo as brumas duma noite caliginosa, desponta no
horizonte com luz indecisa e frouxa, até que, pouco a pouco, vencendo
as névoas, se ostenta com esplendor e majestade no Zênite.
Aquela legislação de Moisés foi inspirada num princípio
de justiça, porque, regulando as faculdades de vingar, lhe delimitou
os ímpetos, contendo-os nas proporções exatas do dano ou
ofensa recebida. Tanto isto é verdade, que até hoje, após
milênios decorridos, ainda os homens, em geral, não se ajustaram
rigorosamente ao — dente por dente — excedendo-se em suas vinditas
e revides. Logo, o preceito mosaísta não é tão escandaloso
como se imagina, pois representa, realmente, um prelúdio de "justiça.
De outra sorte, verificamos, com bastante amargura, como o nosso orbe ainda
se acha retardado moralmente, apesar do seu grande surto de progresso material,
visto como não chegou sequer a integrar-se no vetusto e rude dispositivo
da legislação hebraica.
A idéia de justiça palpita em todo o ser consciente. A criança,
que recebe certo quinhão duma guloseima qualquer, de parceria com outras,
compara logo a parte que lhe tocou com a dos demais, reclamando, sempre que
se vê prejudicada. Dirão, talvez, que isso é manifestação
do egoísmo, porquanto a criança que protesta é, invariavelmente,
a que recebeu menos, nunca a que foi mais bem aquinhoada.
Mas semelhante observação não invalida a nossa hipótese, porque é mesmo suportando iniqüidades que chegamos a saber o que é a Justiça e o que ela representa na vida humana. Os doentes, por experiência, conhecem o valor da saúde. Os que se vêm constrangidos e escravizados aprendem a amar a liberdade. Ë' no infortúnio que colhemos os melhores ensinamentos. As lições que daí decorrem gravam-se indelevelmente em nosso espírito. Foi o pleno conhecimento da psicologia humana que levou Jesus a dizer, no Sermão do Monte: Bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça, porque serão fartos.
Ora, quem tem fome e sede de justiça é aquele que, privado desse elemento, ficou, por isso mesmo, sabendo o que ele é e que papel representa. Convencido, então, de que a Justiça é tão necessária à vida do espírito, como o alimento é necessário à vida do corpo, empenha-se em encontrá-la e acaba integrando-se nela. Por isso vemos, no ato da criança, que reclama porção igual àquela distribuída às suas companheiras, vislumbres da luz da justiça a despontar na mente infantil. Quanto às que se calam, recebendo mais, assim procedem pelo poder do egoísmo, sendo este, aliás, o critério que vigora, não só entre as crianças, como na sociedade dos adultos.
Daí a sentença evangélica: Não faças a outrem o que não queres que os outros te façam. Esta máxima exprime bem o espírito de justiça. Assim como não queremos receber menos, também não devemos desejar receber mais; pois tanto há injustiça num, como noutro caso. A mesma falha que notamos na distribuição avantajada para outrem, persiste, quando somos nós os favorecidos. Demais, cumpre considerar que não é propriamente na igualdade da distribuição que está a justiça, como querem os simplistas.
A
justiça se manifesta no — dar a cada um o que é seu, o que
lhe pertence, isto é, aquilo a que faz jus e tem direito. O pão
nosso de cada dia dá-nos hoje — ensina o divino intérprete
da soberana justiça. Notemos bem que esse pedido se refere exclusivamente
ao que é nosso, isto é, ao indispensável à nossa
subsistência e manutenção. Nada do alheio, nada do supérfluo:
somente o que é nosso, por força da lei natural de conservação.
A justiça não se limita só a dar e distribuir, como pensam
os comodistas. Ela quer também receber. Geralmente os que reclamam aquilo
que julgam seu, esquecem-se de restituir o que não é seu. A justiça
presta contas aos que lhe dão contas. Se não lhe damos conta do
que temos, não nos assiste o direito de lhe pedir conta do que não
temos. Justiça é luz: revela à consciência
o que existe no coração. Aqueles que cerram os olhos às
falhas e senões apontados pela consciência própria, não
poderão ver o bem que tanto almejam.
A Justiça é a lei. Sendo esta, como é, perfeita, é
por isso mesmo imparcial. A lei é urdida de deveres
e direitos. Estes decorrem daqueles. Desfrutar direitos sem cumprir deveres
é a velha utopia dos egoístas, donde tem resultado a confusão
em que a humanidade vem-se debatendo através dos séculos. Os homens
ergueram templos majestosos ao Direito. Jesus, do Alto, vendo que debalde eles
se agitavam em torno de uma ideologia vã e vazia, veio à terra
e erigiu, no cume do Gólgota, um templo e um altar ao Dever, ensinando
e exemplificando que o Direito nasce do Dever. Pretender implantar aquele sem
este, é tão pueril, como esperar a germinação do
grão que não foi semeado. Escola de Direito,
desacompanhada da Escola do Dever, é a moderna torre de Babel, demandando
as nuvens para alcançar o céu.
Costuma-se dizer que neste mundo não há justiça. Engano:
aqui como além, em toda a parte do infinito universal, a Suprema Justiça
se cumpre em sua plenitude. A lei se revela entre as causas e os efeitos que
daquelas decorrem. Tudo, pois, que sucede neste plano, onde ora nos encontramos,
é efeito de causas próximas ou remotas. Só com os olhos
da razão podemos ver os esplendores da Justiça. Como, em geral,
tudo aqui se julga perfuntoriamente, utilizando-se apenas dos sentidos, conclui-se
que não há justiça na Terra.
E assim discorrem os entendidos do século: Justiça é uma ficção, um ideal se quiserem, nada porém encerra de real e positivo. Vede o que se passa em torno de nós: aqui, um marido exemplar, suportando a esposa fútil, caprichosa, desamorável e perjura; ali, o reverso da medalha: uma esposa dócil, criteriosa e dedicada ao lar, sofrendo o convívio dum marido rude, desafeiçoado e libertino. Além, vemos pais solícitos, sacrificando-se por filhos ingratos e maus que os desdenham e menosprezam.
Ao
lado desse quadro pungente, deparamos com filhos meigos e respeitosos cujos
progenitores, velhacos e viciados, descuram da sua educação e
do seu futuro. Mais adiante, vê-se o rico astuto espoliando o pobre de
boa fé; o industrial poderoso, no uso e gozo de favores e regalias iníquas,
explorando os consumidores, concorrendo para o encarecimento da vida. Logo após,
é o impostor triunfante, ao lado da probidade humilhada; é a virtude
abatida e o vício entronizado; é o algoz impune e a vítima
desamparada; é a saúde e o vigor banqueteando-se no tremedal do
mundanismo e a enfermidade gemendo no leito das agonias lentas, intermináveis;
é o gênio a fulgir como astro de primeira grandeza no azul do firmamento,
e o imbecil confundindo-se com o pó das ruas por onde perambula; é
o desperdício, o supérfluo, o luxo desmedido, o fausto arrogante
e as pompas que deslumbram, junto da carestia, da miséria, da fome e
da nudez; é a beleza plástica, o aveludado de faces rosadas que
lembram pétalas das mais delicadas flores, ao lado de criaturas repelentes
cobertas de chagas e pústulas asquerosas, ou portadoras de aleijões
que horrorizam. É, finalmente, a lágrima desconsolada junto ao
riso impenitente, a dor e o prazer, um, ao pé do outro. Onde, pois, a
Justiça?
Esse caos, onde tudo parece confuso e obscuro, é precisamente a expressão
da indefectível justiça que se cumpre. É a expressão
de uma esplêndida harmonia, surgindo de todas essas desconcertantes desafinações
da grande orquestra da vida. Não há vítimas no meio de
todas essas aparentes anomalias. Os olhos do corpo vêm vítimas,
quando os da alma não funcionam. Abertos estes, a mais perfeita justiça
se revela à luz da nossa razão. Fechem-se os olhos da carne e
abram-se os do Espírito: ver-se-á na vítima de hoje o algoz
de ontem. O homem é senhor do futuro, mas escravo do passado. Resgata-se
no momento atual a dívida de outrora. Nós somos de ontem e o ignoramos,
pois a nossa vida, na terra, passa como uma sombra, disse Jó.
Os nossos sentidos observam a parte destacada do todo: eis a ilusão.
A sabedoria do Espírito, ligando o passado ao presente, abrange o conjunto,
a realidade, a vida no amálgama das múltiplas existências!
Estamos num planeta de reajustamento. Aqui se conjuga o passado com o presente.
Dessa conjugação resultará o futuro que nos espera. E tudo
se processa sob o império da Justiça, que rege o Destino. Na diversidade
está a unidade. Da combinação de sons divergentes resultam
sublimes melodias. Nas desigualdades sociais está a sanção
da Justiça, de acordo com a velha profecia de Isaías:
Voz do que clama no deserto:
Preparai o caminho do Senhor,
Endireitai as suas veredas;
Todo o vale será aterrado,
E todo o monte e outeiro serão arrasados;
Os caminhos tortos far-se-ão direitos,
E os escabrosos, planos;
E assim todo o homem verá a salvação de Deus.
Esse
vaticínio se cumpriu outrora com o advento do Batista, o precursor do
esperado Messias; e cumpre-se nos tempos modernos, através do advento
do Espiritismo, cuja missão é rememorar as palavras do Cristo
de Deus, trazendo à tona o seu verbo, fonte eterna das revelações
divinas; fonte inesgotável donde emana, sempre fresca e renovada, a água
viva que mitiga a sede de luz dos que expiam suas culpas no cárcere escuro
da carne.
A propósito de como se executa a justiça na sociedade humana,
assim se exprime um grande sociólogo contemporâneo: — Não
pense nunca: Fulano tem mais do que merece. Jamais exclames: Injustiças
da sorte! Em verdade te afirmo que não há fiel, que não
há balança de precisão mais delicada e perfeita que a da
justiça distributiva. Deus não tem que intervir nas sanções
dos atos humanos. Cada ato leva em seu germe o prêmio e o castigo, como
em cada bolota está o azinheiro ou o carvalho com todas as suas possibilidades,
sua majestosa fronde, flores e até os pássaros que se aninham
em seus ramos!
A força invisível que distribui os bens e os males é uma
lei; e assim como é impossível que se equivoque a lei da atração
universal, assim também não é possível que esta
portentosa lei incida no mínimo erro. Quando Newton formulava já
em mente seu famoso princípio, parecia que determinados movimentos dos
corpos celestes não se ajustavam àquele princípio. Onde
o engano? Na lei? Na rebeldia dos astros? O erro estava nas observações,
nos cálculos das distâncias, em certas medidas terrestres inexatas.
Retificados esses cálculos e essas medidas, verificou-se que a lei era
infalível.
Pois assim é a justiça distributiva: nosso olhar, nossa observação,
nosso juízo, nosso compasso, se equivocam constantemente: Ela, nunca.
O que nos acontece é precisamente o que deve acontecer, e o Universo
inteiro não esmagará sem razão a mais pequenina formiga.
Eis aí, numa síntese poética, como se executa em cada um
de nós, a indefectível justiça. Somos os arquitetos do
nosso destino. Trazemos conosco, perfeitamente encadeadas, as causas e os respectivos
efeitos, que determinam tudo que nos acontece, tal como a semente encerra em
seu âmago, oculto pelos tegumentos, os germes donde procede a árvore
com seus ramos, folhas, flores e frutos.
O Espiritismo não acena com fantasia visando a
fazer prosélitos. Mostra a verdade, tal como ela é pois, como
afirma Jesus, só a verdade nos libertará. Aquilo que o homem semeia
— disse Paulo — isso mesmo colherá. Com Deus não se
faz conchavos, nem arranjos, nem negociações. Deus está
na imutabilidade da lei. A Ele devemos gratidão, respeito e obediência.
Não se anulam os efeitos das causas que criamos, em podemos alterar o
curso natural dos acontecimentos que conosco se relacionam. Devemos, sim, nos
preparar para recebê-los, tirando das experiências do presente os
elementos para formarmos um futuro melhor.
E, por ser assim, o inigualável Mestre nos aconselha: Buscai em primeiro
lugar o reino de Deus e a sua Justiça, e tudo o mais vos será
dado por acréscimo. Isto quer dizer que devemos procurar conhecer a Justiça
de Deus através da manifestação das suas leis, pois só
assim decifraremos os enigmas da vida e do destino, na parte que nos diz respeito.
Ao terminar, dirijamos um apelo ardente aos nossos irmãos do alto e aos
de baixo; aos que pairam vitoriosos nas regiões da luz, e aos que porfiam
e lutam nas camadas inferiores da imensurável estrada da evolução
anímica.
Aos de cima, aos nossos irmãos maiores pelo saber e pela virtude, direi
assim: Irmãos, que vos achais muito acima de mim, não vos invejo:
admiro-vos! O estado superior que ora desfrutais, é um incentivo para
mim. Quero imitar-vos, vou esforçar-me; serei diligente, operoso e perseverante;
pois sei que assim, por esse caminho, galgarei, um dia, a esfera luminosa que
habitais, tornando-me tal como ora vos vejo! O sentimento que me despertais
é de emulação. Ao contemplar-vos, experimento um grande
anseio de escalar as alturas, subindo a simbólica escada de Jacó
por onde vos elevastes.
Sei
que minha sorte vos interessa, e que o meu desejo é também o vosso.
Ajudai-me! Irmãos meus, que vos encontrais abaixo de mim na escada da
Vida, não vos lamento, nem vos desprezo. Já fui, em tempo, o que
ora sois. Na criação não há privilégios.
Todos os seres têm capacidade e aptidões para lutar e vencer, progredir
e melhorar. Em cada átomo do universo, o Supremo Artífice insculpiu
esta legenda: Crescei e multiplicai-vos.
Entre o verme e a estrela existem pontos de contacto. Nenhum ente, por mais
mesquinho que seja, está esquecido do seu Criador. Vós que sois
aves, que não semeais nem ceifais, que não tendes celeiros nem
despensas, não é verdade que Deus vos alimenta? Vós, que
sois lírios, que não sabeis fiar nem tecer, não é
certo que vossa indumetária é mais bela e mais custosa que as
dos áulicos de Salomão? Todos vós fazeis parte da estupenda
e maravilhosa orquestra da Vida. O canto do rouxinol é tão necessário
ao concerto universal, como o pensamento de Newton.
Nada, pois, de revoltas, nada de desânimos. Eu me interesso pelo vosso bem, quero ardentemente o vosso progresso; pois, sereis, um dia, o que eu sou na atualidade. Creio piamente no vosso aperfeiçoamento e na vossa marcha ascensional. Creio na evolução que se opera através da cadeia imensa das existências sucessivas, porque creio no Autor da Vida e confio na sua JUSTIÇA!
Vinícius