LUZ E PÃO

Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus — disse Jesus ao Diabo.

Essa assertiva do excelso Mestre é muito eloquente e oportuna. Que o homem precisa de pão para conservar o corpo, todos os diabos sabem, e disso tiram partido para excitar apetites e acirrar contendas. O que o Diabo não sabe, ou finge não saber, é que o homem não vive só de pão, mas também e principalmente, de luz, que é a verdade que sai da boca de Deus.

A luz é para o Espírito o que o pão é para o corpo. E o homem não é matéria, é Espírito encarnado. Se, pois, o pão é indispensável à vida corpórea, a luz é imprescindível à vida espiritual. Esta é a vida verdadeira que naquela outra se reflete. Daí o ser a mais importante, a mais digna de atenção e de cuidados.

Cumpre, portanto, que o homem não trabalhe somente pelo pão que nutre o corpo perecível, mas, também, pela conquista da luz que alimenta o Espírito imortal. Sendo o homem, como é, uma entidade composta de alma e corpo, não pode por isso viver só de pão.

Pelo pão, no entanto, todos porfiam e se batem com denodo e tenacidade. Pela luz, porém, não fazem o mesmo. Quem carece de pão, protesta desde logo e põe-se em atividade, lançando mão de todos os meios e processos para obtê-lo. Aqueles que se acham em trevas nelas permanecem, à míngua de luz, agitando-se no meio da confusão e da incompreensão dos problemas que os afetam.

A luz não lhes interessa, como o pão interessa ao faminto; por isso este, quando não pode exigir, pede e implora pão, enquanto que aquele menospreza e desdenha a luz cuja importância desconhece. O faminto sabe que não tem pão. O ignorante presume que tem luz e, por isso, não a deseja nem a procura. O faminto está certo de que sem pão não pode viver, ao passo que o insipiente ignora o papel que a luz representa na trama da vida eterna do Espírito.

A fome de pão produz efeitos imediatos, que o faminto busca remediar ou prevenir. As dolorosas consequências da ignorância são complexas e, por vezes, remotas; de modo que a sua vítima não estabelece nenhuma relação entre a causa e seus efeitos.

Não é preciso dizer ao faminto que ele necessita de pão. No entanto, é mister muito esforço, paciência, engenho e arte para convencer o ignorante de que ele tem necessidade de luz. Qualquer pode dar pão. Poucos estão em condições de espargir e prodigalizar luz. O pão é ardentemente desejado pelo faminto, enquanto que o ignorante rejeita e repele a luz ofertada.

Profundo conhecedor da psicologia dos ignorantes, o sábio Despenseiro das claridades divinas disse: Aquele que não crê em mim já está condenado. E a condenação é esta: A luz foi dada aos homens e eles a recusaram. Ora, quem rejeita a luz que se lhe oferece está realmente condenado a permanecer nas trevas e a suportar os acidentes e reveses que resultam dessa situação.

Se o ignorante sentisse fome de luz, como o faminto sente fome de pão, já não haveria consciências e corações mergulhados em trevas. O mundo já seria luminoso. Mas são tão raros os que percebem e confessam achar-se sob o império dessa espécie de fome, que Jesus os encartou, como aos humildes, no número dos santos e venturosos, dizendo: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.

No entanto, se são muitos os que carecem de pão, maior ainda é a soma dos faltos de luz, visto como, nessa rubrica, pode contar-se a humanidade inteira, conforme atesta o estado caótico em que o mundo de nossos dias se debate.

Acender, pois, a luz interior nas profundezas das almas aqui encarnadas, tal a gloriosa e privilegiada missão do Espiritismo.
É muito triste, disse Victor Hugo, ver um corpo morrendo à míngua de pão; porém, mais triste ainda é ver uma alma morrendo à míngua de luz.

Vinícius