O
ÓBULO DA VIÚVA POBRE |
"Sentando-se
Jesus em frente ao gazofilácio, observava como o povo punha ali as suas
dádivas. Muitos ricos deitavam grandes quantias; chegando, porém,
uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, que valem um quadrante.
Chamando, então, Jesus os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade
vos digo que esta pobre viúva deu mais que todos os ofertantes; pois
estes deram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo
o que possuía, tudo de que dispunha para o seu sustento".
Vendo
em Jesus o Mestre, o Educador que ensina através das páginas do
livro da vida fazendo do mundo uma escola, vamos considerar o fruto de sua observação,
com respeito à dádiva dos ricos e à da viúva pobre.
Narra o texto que Jesus acompanhava o gesto daqueles que depositavam no tesouro
do templo as suas ofertas. O excelso intérprete da justiça divina
verificou que os homens ricos lançavam vultosas somas no gazofilácio,
julgando, talvez, assegurar com seu ouro uma bela posição no reino
dos céus. O que, porém, chamou a atenção dele, de
modo particular, foi a insignificante oferta da viúva pobre, que deitou
no cofre sacro duas moedinhas de cobre, no valor dum quadrante, ou seja, 4 centavos.
O Mestre observa a atitude daquela mulher, penetra o seu íntimo, devassa
os recessos mais secretos do seu coração e predica assim aos discípulos:
Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou mais na arca do templo
que todos os ofertantes. Porque estes deram do que lhes sobrava; ela, porém,
da sua pobreza deu tudo o que possuía, tudo o que tinha reservado para
o seu sustento. É significativa a expressão — em verdade
vos digo — com que Jesus costumava preceder as sentenças graves
que proferia. Em verdade quer dizer na realidade, de fato, isto é assim,
e não como os homens querem que seja, ou supõem que há
de ser.
A linguagem humana é capciosa: traduz o convencionalismo de cada época; reflete a opinião sempre errônea e falsa da conceituação vigente adotada pela maioria, ou, ainda, a expressão da ignorância oficializada pelos usos e costumes sociais. Apartando-se deste círculo vicioso, o Sábio Instrutor da humanidade acentua que o seu dizer é — em verdade — isto é, fora de todo o conceito terreno eivado de dolo; fora de todo o juízo humano pronunciado levianamente, sem conhecimento de causa, na ignorância dos fatores ocultos que determinam os acontecimentos e os fenômenos que caem sob o domínio dos sentidos.
Ele
estava em condições de apreciar os fatos da vida com justeza,
pois que não os julgava pelas aparências, porém mediante
plena compreensão dos elementos que entram em jogo para produzi-lo. Daí
a sua autoridade acerca dos julgamentos que emitia e das lições
que ministrava, fazendo-as preceder desta advertência: em verdade vos
digo. Vejamos, agora, o que Ele, em verdade, nos ensina neste caso do óbolo
da viúva pobre.
A maneira como Jesus aprecia o mérito ou demérito das nossas obras
difere, sobremaneira, do critério, usado pelos homens. No episódio,
que ora nos serve de tema, vemos que Ele reputou a oferenda da viúva
como a maior de todas depositadas no gazofilácio. Nada obstante, foi
a menor, a mais pequenina numericamente falando. Isto porque o Mestre se louvou,
não nas aparências, isto é, no que se podia perceber com
os sentidos, mas nos motivos íntimos que impeliram os ofertantes a lançar
suas dádivas na arca do templo. Por que o fizeram eles? Quais os fatores
que preponderaram no ânimo dos ricos para que dessem grandes somas?
A
vaidade, talvez, porque as ofertas eram feitas publicamente; o interesse —
quem sabe? — de comprar com o seu ouro a simpatia dos deuses, esperando,
por esse processo, alcançar a desejada felicidade futura; ou, ainda,
para serem agradáveis aos influentes sacerdotes e aos poderosos pontífices,
usufrutários e desfrutadores das rendas do templo. Tais motivos, por
si só, invalidam, moralmente, as mais vultosas dádivas. Os que
agiram visando àqueles alvos já receberam a sua recompensa, de
acordo com os planos concebidos.
Quanto à viúva, cabe-lhe o mérito da máxima sinceridade
com que agiu. Essa virtude é que dá valimento ao seu gesto. Ela
considerava a espórtula ao templo como um dever sagrado, portanto imprescindível.
A prova do que dizemos está no esforço que fez; mais do que esforço,
no sacrifício, visto como se privou do único recurso pecuniário
de que dispunha, o qual se destinava ao seu próprio sustento! Seu ato
foi, portanto, um ato de santidade, porque de suprema renúncia.
A soma total de todo o ouro, deitado, no decurso dos séculos, no gazofilácio
do famoso templo de Jerusalém, não valia, por certo, a excelsitude
do sentimento que, do fundo do coração daquela pobre mulher desprotegida,
a compeliu a privar-se das suas duas únicas moedinhas, reservadas para
atender à mais premente e cruel das necessidades humanas — que
é o pão de cada dia.
O Soberano Intérprete da divina justiça costumava computar, no
seu julgamento, os valores morais, e não somente os de ordem material,
como fazem os homens. Por isso teve em maior estimação a mesquinha
oferta da viúva, comparada com a opulenta doação dos ricos:
estes, sem nenhum esforço deram uma insignificante parcela do muito que
possuíam. O juízo humano se funda no testemunho dos sentidos.
O juízo divino se baseia no critério da razão e no senso
do coração. A verdade, como disse muito bem Flammarion, não
está no que vemos, mas naquilo que escapa à apreciação
dos nossos órgãos visuais.
A balança da excelsa justiça não pesou o ouro que os ricos
deitaram no gazofilácio, mas sim, o ouro que eles retiveram em seu poder.
Estabelecido o confronto, constatou que a dádiva foi exígua. No
que respeita, porém, à viúva pobre, a oferta foi maravilhosa,
pois que ela havia dado tudo quanto tinha. Quem dá tudo que possui dá
o máximo. Não é possível haver dádiva maior.
Tal o critério que Jesus empregou ao proferir a sentença: Em verdade
vos digo que esta pobre viúva deu mais que todos os ricos.
Pela ordem destas considerações, ou seja, por associação
natural de idéias em torno deste episódio evangélico, ocorre-nos
à mente um fato que nos vem provar quanto a nossa sociedade vive divorciada
dos precípuos elementos de justiça. Queremos nos referir à
maneira de aquilatar-se o valor do trabalho, de onde decorre, conseqüentemente,
a distribuição da riqueza. Costuma-se dividir o trabalho humano
em duas categorias: o intelectual e o manual, isto é, o da inteligência
e o dos músculos.
Os primeiros fazem jus a remunerações desproporcionalmente maiores que os últimos. O trabalho intelectual chega, por vezes, à culminância de um valor meramente estimativo, fora de qualquer princípio de equidade, enquanto que o labor dos músculos, quanto mais rude e mais penoso, tanto menos valia representa. Será justa semelhante maneira de julgar o produto da atividade humana? Por que motivo vale muito o esforço intelectual e vale pouco, quase nada, o esforço muscular? Será, talvez por que se empresta uma certa nobreza ao trabalho intelectual? Mas será, acaso, menos elevado ou menos nobre o trabalho manual?
Parece-nos que aqueles que arroteiam o solo, abrindo leiras para receber a semente no milagre cotidiano da multiplicação dos pães, exercem o mais humano e santo dos labores. Demais, o que cumpre considerarmos é a utilidade do trabalho executado. A significação do vocábulo trabalho, segundo os economistas, é a atividade humana empregada na produção de utilidades. Ora, o trabalho dos músculos é tão necessário à sociedade como o da inteligência. Um não é, em rigor, superior a outro, porque ambos os ramos de atividade preenchem as necessidades da vida humana.
Onde,
pois, a razão de tamanha disparidade no cômputo que se faz dos
produtos manuais em comparação com os intelectuais? A única
explicação está em que são os intelectuais que fazem
as leis e regulam a sua aplicação na sociedade. Vivemos sob o
despotismo da inteligência. Daí procede a iniquidade. Sim, a iniquidade
porquanto o lixeiro ou o cavoucador que despende o seu maior esforço
e que, como a viúva pobre, dá tudo quanto tem, merece perceber
um salário que lhe proporcione, e à sua família, relativo
conforto e bem-estar. Eles têm direito à vida e aos legítimos
prazeres que refrigeram e amenizam as asperezas da luta cotidiana.
O que Jesus apreciou na dádiva da viúva foi o supremo esforço
que ela empregou, despojando-se de tudo que possuía, para atender às
solicitações da sua crença. Por isso, e só por isso,
as suas duas moedinhas de cobre valiam mais que os punhados de ouro que os nababos
daquela época lançaram na arca do templo. Apliquemos este critério
no valor que damos ao trabalho, e cheguemos à conclusão de que
muito merece aquele que muito se esforça, aquele que faz o melhor que
pode no exercício do mister que exerce, seja este de que natureza for.
Em realidade, todo o trabalho é intelectual. Os músculos são
dirigidos pela inteligência. Não há labor puramente manual,
pois que o homem não é máquina de função
mecânica e monótona. Os que exercem os rudes misteres musculares
são aqueles cuja inteligência ainda não foi educada suficientemente
para lhes proporcionar um trabalho menos árduo e mais compensador.
Neste mundo, dadas as suas condições de planeta atrasado, de mundo
expiatório, os que sabem mais se locupletam dos que sabem menos, sendo
esta a razão das formidáveis desproporções no aquilatar-se
o valor das várias modalidades de trabalho, e, como consequência,
da distribuição da riqueza.
E, assim se explica a advertência do Mestre dirigida
aos seus discípulos: Se a vossa justiça não for superior
à dos escribas e fariseus, não entrareis no reino de Deus. A justiça
que vigora neste mundo é justiça de escribas e fariseus, cujos
frutos são a miséria, as rivalidades e as guerras.
Vinícius