RESPINGANDO
NA SEARA DO SENHOR |
"Sede simples como as pombas e prudentes como as serpentes ".
Sábio
conselho, luminosa advertência. Em atendê-la, tal como reza o seu
espírito, está a segurança da nossa paz. Simples como as
pombas e, ao mesmo tempo, prudente como as serpentes. Aliar, portanto, a simplicidade
da columba à prudência da víbora. Tirar a qualidade de uma
e a de outra, conjugando-as numa só. Nem tanto ao mar nem tanto à
terra. Fugir dos extremos, por isso que 'in médio stat virtus'.
Fazer de duas características opostas uma terceira, que representa o
equilíbrio entre ambas. O exagero destrói as virtudes. O sal é
bom como tempero. Temperar é harmonizar. O sal em demasia estraga os
manjares. Saber dosá-lo é uma arte. Por isso cumpre combinar,
num entrosamento regular, as qualidades que exornam nosso caráter. A
justiça é uma virtude que, levada ao exagero, degenera em iniquidade.
'Summum jus, summa injuria'.
Vós sois o sal da terra. O cristão deve ser um elemento de equilíbrio
social. Equilíbrio é harmonia. Realizá-lo em nós
é resolver o problema da nossa felicidade. Quem não é por
mim é contra mim... Quem não é contra nós é
por nós. Ter-se-ia contradito o Mestre? Não,
por certo. Suas palavras são espírito e vida. A letra mata e o
espírito vivifica.
Realmente, por vezes, quem não se manifesta contra nós, age em
nosso favor, por isso que o silêncio, consoante a conjuntura, equivale
à conivência ou aprovação. Circunstância há,
no entanto, em que o silêncio é criminoso, visto como envolve,
por parte de quem o adota, a intenção oculta de pactuar com a
injustiça, fugindo às atitudes definidas, a fim de não
se comprometer. Assim, pois, o silêncio, da mesma sorte que é ouro,
como diz o rifão, pode ser deslealdade e hipocrisia. Tanto milita contra
como a favor de alguém, dependendo das condições especiais
do momento.
Jesus é a verdade. Ser, com conhecimento de causa, contra a verdade,
é ser positivamente contra Ele. Ignorar a verdade e, por isso deixar
de pronunciar-se a seu favor, não é ser contra ela. A quem muito
foi dado muito será exigido. A quem pouco foi dado pouco será
pedido.
A responsabilidade maior ou menor de cada um está na razão direta
dos conhecimentos próprios. Todo o mal tem consequências funestas;
todavia, são distintas as que decorrem do mal praticado por ignorância,
daquelas que resultam do mal cometido conscientemente. O homicídio tem
dois aspectos: o voluntário e o involuntário. Aquele constitui
assassinato; este outro, delito de imprudência.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão
fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Dentre aquelas beatitudes qual será a mais excelente? Ambas. Não
podemos colocar uma acima da outra, pois que as duas envolvem virtudes que se
ajustam e se completam.
Justiça e misericórdia são revérberos da mesma luz.
Entre elas não há incompatibilidades, porque as virtudes nunca
se acham em conflito entre si. Podem coexistir em estreita harmonia, coesas
e unidas, formando uma unidade: a perfeição.
É o que se verifica com relação aos atributos divinos.
Deus é, ao mesmo tempo, infinitamente justo e infinitamente misericordioso.
Esses atributos agem concomitantemente. Quando ele exerce sua justiça,
não suspende o curso de sua misericórdia; e, ao manifestar esta,
continua no exercício daquela, visando sempre o mesmo alvo: a
evolução das almas.
A minha paz vos deixo, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como a dá
o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.
A paz que Jesus nos promete não é aquela com que o mundo nos acena.
Esta é ilusão. A de Jesus, uma realidade. A do mundo se funda
em circunstâncias exteriores, resulta do jogo de certos e determinados
fatores que existem fora de nós mesmos. A do Mestre decorre das condições
íntimas de cada um; tem as suas raízes mergulhadas nas profundezas
da alma, independente, por isso, das exterioridades que nos cercam.
A
do mundo é, por sua natureza, instável, efêmera e incerta.
Aquele que a tem não se sente seguro de sua posse; vive inquieto, sobressaltado
e apreensivo, porque sabe, por experiência, que se acha na dependência
de influências imprevisíveis. Desfrutam-na em certo momento, sujeitos
a perdê-la num dado instante.
A paz que o Mestre nos lega, como preciosa herança,
é permanente; apóia-se sobre a rocha inabalável de uma
fé consciente e luminosa, que não permite jamais que o nosso coração
se turbe nem se atemorize. A paz mundana nunca assegura tranquilidade, por isso
que está à mercê de acontecimentos cujo desencadear não
lhe é dado prever nem prevenir.
Tal, porém, não sucede com a do Cristo de Deus, que nos prepara para suportar os acontecimentos adversos, com ânimo sereno e consciência tranquila. Os acontecimentos não nos pertencem, mas a maneira de suportá-los depende de nós, do nosso estado interior de maior ou menor resistência moral. Assim como o corpo bem nutrido está em condições de enfrentar as intempéries, da mesma sorte o Espírito devidamente equilibrado é capaz de sofrer e resistir às vicissitudes e reveses, sem descontrolar-se.
Os danos provocado pelas conjunturas por que passamos das mais simples às mais graves, decorrem menos dessas mesmas conjunturas do que do modo como as recebemos. Só a paz interior, profunda, apoiada nos alicerces inamovíveis da fé que encara a razão face a face, resiste com valor e coragem aos sucedimentos a que estamos expostos na travessia por este orbe de provas e de expiações.
Vinícius