VEDE
AS AVES DO CÉU |
"Não andeis cuidadosos da vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir: não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam nem ceifam; que não ajuntam em celeiros; no entando, vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?". (Evangelho).
O trecho
acima, extraído do Sermão da Montanha, é um apelo à
nossa fé. Jesus nos concita a termos confiança em nosso Deus e
Criador, por isso que Ele sabe das nossas necessidades e dispõe de poderes
e meios infinitos para satisfazê-las. E, notemos que tal critério
está perfeitamente fundamentado.
Pois, se Deus é a fonte da Vida e o supremo arquiteto do universo; se Ele suspende e mantém no espaço imensurável mundos e sóis incontáveis; se faz que essas moles gigantescas girem incessantemente dentro das suas respectivas órbitas, sem jamais se colidirem; se guia, orienta e dirige as constelações sem conta, encerrando, cada uma delas, miríades de estrelas de todas as grandezas; se concebeu e decretou leis imutáveis que, de toda a eternidade, regem os dois planos da natureza — o físico e o moral — de modo que todos os seres permaneçam sob o influxo dessas leis; se, finalmente, dele mesmo procedemos, por isso que dele emana a Vida que está em nós e que realmente constitui a nossa individualidade, por que duvidarmos do dia de amanhã? por que nos perturbarmos com o menos, quando nos é dado e assegurado o mais?
Sim; pois não é verdade que a vida é mais que o alimento?
e o corpo mais que o vestuário? Refutamos que o alimento não faz
a vida; antes, é a vida que, transformando o alimento em sangue, permite
e assegura, durante certo tempo, a subsistência do corpo humano no plano
terreno. O milagre da transubstanciação do pão em sangue
se opera à revelia do homem; portanto, a mesma vida corpórea é
dádiva de Deus. Ora, se Ele nos dá a vida não nos proporcionará
os meios de mantê-la?
O mesmo se passa com relação ao vestuário. O corpo não
é superior às vestes com que o cobrimos? Se esse aparelho maravilhoso,
composto de órgãos complexos e delicados, destinados a exercer
variadas funções, cada qual mais admirável, nos foi dado
graciosamente, por que duvidarmos de que o seu doador não deixará
de pôr ao nosso alcance a indumentária com que o vistamos?
Para melhor esclarecer o tema em apreço, o insigne Mestre recorre ao
majestoso panorama da natureza que nos cerca, buscando ali o seu material didático.
Então diz: Olhai para as aves do céu que não semeiam nem
ceifam; que não ajuntam em celeiros; no entanto, vosso Pai celestial
as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Magnífico e estupendo exemplo é esse que o excelso Educador apresenta
aos seus educandos. Quando tem o homem que aprender com as aves! A primeira
e, talvez, a mais excelente das lições é a alegria de viver.
Por que não reina em nosso meio aquele contentamento, aquela confiança
sadia, aquele prazer inocente de gozar as belezas e os encantos que a vida natural
proporciona? Um dos motivos, quiçá o principal, é porque
não temos fé, é porque a dúvida e o temor nos assaltam
a cada passo, ensombrando o carreiro que trilhamos.
A
desconfiança e a incerteza geram, a seu turno, outros fatores que contribuem
para entenebrecer os nossos horizontes, roubando-nos a alegria de viver que
os pássaros sabem tão bem desfrutar. A ambição desmedida,
tendo como justificativa uma falsa previdência, cujo objetivo, em realidade,
é acumular cada vez mais, constitui a fonte de inúmeros males
que perturbam e afligem a vida humana.
Na sociedade, das aves, não se ajunta em celeiros. E por que não
há celeiros, não existem ladrões, nem homicidas, nem rivalidades,
contendas e invejas; nem, tampouco, as guerras, com seu cortejo de horrores.
E porque não se ajunta em celeiros, não há 'trust' nem
carestia; não há exploradores nem explorados; não há
igualmente, pobreza, miséria, orfandade e velhice desamparada. Todos
vivem a vida de cada um, e cada um vive a vida de todos, donde resulta a alegria
de viver, que os homens desconhecem. O não ajuntar em celeiros encerra,
pois, a chave da felicidade presente e futura.
No entanto, cumpre notar que as aves não são ociosas. São
essencialmente ativas, diligentes, laboriosas. Agem no setor que a natureza
lhes traçou, tanto como o homem no seu. Quando Jesus alega que elas não
semeiam nem ceifam, quer com isso dizer que não se preocupam única
e exclusivamente com a vida do corpo, como em geral fazem os homens. As aves
cantam, salmodiam, festejam a natureza, saúdam a aurora que desponta,
amam, constróem seus ninhos com arte e gosto, criam os filhos, revelando
cuidados, desvelos e sabedoria. São, portanto,
mais espirituais do que nós.
Quanto ao alimento, obedecem ao preceito evangélico: Buscai e achareis.
Elas procuram e encontram o necessário para a sua manutenção.
Se os homens procedessem desse modo, seriam, como elas, venturosos. A terra
dá, farta e abundantemente, pão para a boca de todos. Os homens,
no seu desmesurado egoísmo, chegam a destruir as messes, ou então,
as restringem, ocasionando, dessarte, o encarecimento do custo da vida.
Na sociedade das aves, não há enfermidade, porque as doenças
do corpo procedem das paixões inconfessáveis, dos vícios
e da intemperança, cuja sede está no Espírito. Não
havendo celeiros ou, seja, a ambição de acumular, as paixões
animalizadas se extinguem naturalmente, porque não encontram solo propício
onde possam proliferar. As moléstias são fruto do meio. É
indispensável terreno favorável para que elas se desenvolvam.
O melhor adubo para produzi-las são as variadas e multiformes modalidades
do egoísmo.
Tais
vírus são desconhecidos entre as aves do céu. Outro grande
e importante ensinamento, que com elas aprendemos, é o modo de criar
os filhos. As aves criam os filhos para a vida, como a vida é. Dão-lhes
plena e cabal assistência, enquanto eles disso necessitam. Levam-lhes
a comida ao ninho deitando-a cuidadosamente na boca. Logo que os filhotes se
emplumam, são instruídos no voar. Os pais os acompanham nas primeiras
tentativas enquanto as asas não se acham suficientemente desenvolvidas.
Depois, os deixam em liberdade, para que ajam por si próprios, integrando-se
na vida social ou coletiva.
Nós pretendemos que os filhos sejam propriedade nossa. Queremos imprimir-lhes
um determinado roteiro, sem sabermos se é esse o que melhor lhes convém.
Por vezes os pais procuram desviar os filhos da vocação que revelam,
forçando-os a abraçar uma carreira para a qual não se sentem
inclinados. Daí os desapontamentos, os fracassos e a generalizada ingratidão
de que comumente se queixam.
Tomemos, pois, na devida consideração as palavras do Rabi da Galiléia:
Olhai para as aves do céu! Vede como vivem! Aprendei, com elas a vida
simples, a vida cheia de alegria, a vida sustentada e mantida pelas luminosidades
da Fé que gera confiança NAQUELE que tudo pode!
Vinícius